segunda-feira, 10 de abril de 2017

Amar é para os fracos





Aprendi com os psicólogos a técnica de reproduzir ao interlocutor a sua própria solicitação, versando talvez em nobres palavras e reestruturando, quando necessário, a ordem dos fatos.



Chamemos no de T. Porque era assim que eu o via. Um T bem grande e maiúsculo. Um T que destoava de todos os tipos que passaram por minha primavera árabe. Um T que me deixou sem argumentos quando meu costume era bradar aos quatro ventos que amar é para os fracos. Já entendi que sou um combo completo. Pra ficar comigo tem que levar o refrigerante, a batatinha e o milk-shake: além dos filhos também temos uma cachorra. Não é qualquer sujeito do futuro sexo frágil que aguenta um tipo como eu. Mas T era diferente de todo o resto.



Primeiramente aos restos.



Os tipos que apareceram na minha Primavera Árabe competem em diferentes categorias:



 No quesito performance existem os palmolives: são eles os inertes sob uso de preservativo, os inertes por excesso de psicotrópicos, os inertes pela emoção e os inertes mesmo com reza brava. Todos eles me inspiram compaixão. Ainda no mesmo quesito, temos os céleres. Estes se dividem entre os constrangidos e os iludidos. Os iludidos são piores: acreditam em alguma lógica muito particular de tempo e espaço e se orgulham do seu auto desempenho risível. Destes não tenho compaixão.



E por fim, temos os que nos jogam na parede e nos chamam de lagartixa: não sofrem de inércia e tampouco celeridade, não sabem a diferença entre celulite e estria e costumam brindar o regozijo máximo com onomatopeias, torpezas intimas e lubrificante. Estes, Amadas, são casados. E se não são casados são recém separados, e se não são recém separados são enrolados, e quando são separados há tempos vivem com a ex sob o  mesmo teto, ou subjugados em uma relação doentia de tortura mental , financeira. E tem os que pagam muita pensão. Se são livres e desimpedidos, tem filhos pentelhos. Se não tem filhos, te chamam pra jantar sem propor o local e ainda vaticinam: escolha um lugar baratinho. Esse é o vasto mundo do resto. E havia o T.



T era bem apessoado, bem sucedido, bom de papo, e -o que vim a descobrir depois de uma garrafa de sakê importado e uma bandeja de sushi sem que eu sequer soubesse o valor da conta - era bom de cama. Bom de verdade. Não se enquadrava em nenhuma das categorias acima. Além de ser rico era progressista e de esquerda.



Podíamos passar horas discutindo cinema ou política. T era meu amigo de outros carnavais. A vontade sempre pareceu mútua. Mas T era um homem de princípios. Em todos os nossos diversos encontros nos últimos anos, jamais tentou me beijar. Certa noite, T me trouxe até a porta de casa e não quis entrar. T era casado. E T era um homem casado que levava o casamento a sério.



Quando soube que T estava na repescagem, eu já gostava de seu filho, sabia que sua ex-mulher não era louca e sabia que ele nunca ia me pedir pra escolher um restaurante baratinho.



T me escreveu no dia seguinte elogiando a noite. Me ligou três dias depois se desculpando pela desatenção dos últimos dias. Ele estava ainda muito abalado com os pormenores do divórcio. T estava desculpado.



T me escreveu na segunda-feira de manhã convidando para opinar sobre seu último projeto naquela mesma noite. Vi a mensagem às 9h. Respondi ao meio dia um misterioso talvez.  Ás 17h disse não. Afinal, T era do tipo que valia a pena. E minha experiência recente com o futuro sexo frágil me ensinou que a recusa é o único jeito de valorizar o passe. T não desistiu. Convidou para o dia seguinte.



Aceitei. T escreveu às 9h da terça-feira confirmando se eu ia. Confirmei. Perguntei se era o caso de levar acepipes, ao que T, calorosamente respondeu que já estava preparando comidinhas. Eu comprei um vinho.



Eu nadei 2 km, encontrei minhas amigas para uma caipirinha com adoçante de fim de ano, pintei as unhas, estiquei as madeixas, raspei a perna e quando estava justamente naquele momento fatídico de escolher a calcinha ( a de fiozinho emagrece mas é da Marisa, a larguinha é elegante mas não é de fiozinho, todas pediam sutiã mas a blusa era de costas abertas), T me telefonou.



T queria me dizer 3 coisas:



1)   T havia convidado outros amigos para apreciarem e tecerem comentários sobre seu novo projeto, transformando nosso encontro em um convescote crítico. Os amigos de T não poderiam comparecer, com exceção de Fulana.

2)   Fulana era caso de T há mais de um ano, segue sendo seu caso e será ano que vem, uma vez que T e Fulana decidiram viajar juntos no reveillon. T acabava de derrubar sua própria narrativa de fidelidade e ainda me pedia um favor: que eu não comentasse com Fulana a nossa cópola.

3)   Fulana, antes de namorar com T, havia namorado meninas. T me pediu, caso eu fosse do agrado de ambos (e ambos do meu agrado), que doasse para eles.



Minhas amigas psicólogas ainda estavam em casa. Eu lembrei da velha prática da repetição da tese. Eu me lembrei de Lorelai e Ulisses. Eu me lembrei de GH. A solução do enigma é a repetição de enigma.



“T”, , disse eu em voz doce e decidida. “Deixa ver se eu entendi: Você me ligou pra dizer que convidou sua namorada para nosso encontro, pra pedir que eu não comente o nosso coito, e para fazer um ménage caso ela sinta saudade de sua antiga orientação sexual?”.



Silêncio.



O silêncio é interrompido por uma onomatopeia muito distante daquelas proferidas na alcova.



“Ééééééé.... Estou sendo um pouco egoísta né?”.



“Imagina T. Você só está sendo você mesmo”.



Ainda não consegui inventar uma categoria para T.