quinta-feira, 9 de junho de 2011

MÃE SOLTEIRA

Ela fica imóvel, incapaz, um gesto inacabado. As mãos na altura do peito, o peito disparado, o cotovelo tenso, o dedos estendidos, o copo no chão, os cacos na barata, a barata viva, os filhos dormindo no colchonete no chão. O chinelo no pé, o pé plantado, a boca aberta, sem respirar. O grito enforcado, a antena mexendo. Olho no olho da barata sem olho. A cor de queimado.

A barata estátua.

A barata anda, a perna pula, depois a outra, o grito escapa, a barata passa, os filhos no chão. O grito estria, a criança acorda. A outra não. A barata gira a criança anda, a outra dorme, ela pula, a barata voa, a criança grita, a outra chora. Ela chora, a barata grita, as crianças correm e os cacos no chão.

O chinelo pula, as crianças pulam, a barata pula. O pé cortado, o chinelo virado, a barata não morre. A barata some, as crianças dormem. O olho abre, o corpo deita. O buraco é escuro. A vigília é longa, a noite tarda. Ela sonha. A barata chora.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

OS 10 MANDAMENTOS DE UMA BOA BALADA

1) Festa boa é festa cheia
2) Todos os vizinhos deverão ser convidados
3) Ficar mais bêbado que o anfitrião é falta de educacão
4) Banheiro não pode ter espelho
5) Homem mija na rua
6) Há de ser oferecer cerveja (ainda que a festa seja em uma vinícola)
7)Mulher dança melhor em português
8) Não fazer cara de cônjuge
9) O número de homens jamais deve exceder o de mulheres
10) Nunca chame um policial de “seu guarda”!

terça-feira, 5 de abril de 2011

MULHER ENCIUMADA, OFICINA DO DIABO


De seus digníssimos respectivos elas sabem a senha do email, facebook e do twitter. Checam torpedos, canhoto de cheque e recibo do cartão de crédito. Concatenam datas e horários, refazem traçados, e catalogam internamente um dossiê de eventuais ou obsoletas rivais: as que foram importantes e ficaram feias, as que foram feias e hoje são importantes, as que viraram mãe, as novatas, as semi-adolescentes, as deslumbradas, as de muito longe, as bem chegadas, as estagiárias, as atrevidas e as acima de qualquer suspeita. Toda outra mulher não passará desapercebida. E são ardilosas. Nem Julian Assange suspeitaria. Quando é dada a hora de mandar o verde, recorrem ao sexto sentido e a intuição feminina: “Eu senti”, argumentam, e o cidadão flagrado, estupefato, acredita piamente na perfídia feminina, desde os tempos das 1001 noites.

Já dizia Paulo Vanzolini, o pândego: “Nada pior do que mulher despeitada, porque nenhuma blusa lhe assenta”. Mulher despeitada é mulher contrariada. Mulher que descobre, na literalidade das coisas, que seu homem está comendo uma mulher mais peituda. O que seu homem não suspeita é que por trás de tanto ciúme, há uma devassa cheia de amor para dar. Para dar pros outros. Estão por toda parte. Basta o cidadão entender com que sorte de Sherazede está amancebado para proteger-se, se for capaz:

As Agatha Cristie

Elas recriam enredos tão sofisticados que o sujeito mesmo jamais cogitou que pudesse ter rolado tanta sacanagem naquela bobagem que cometeu no carnaval. Ainda assim elas vão escarafunchando pistas, inventando problemas e quando o adúltero se dá conta, se entregou só pela cara de espanto: “Caraca, como vc ficou sabendo???”.

Perfil psicológico: Quem não deve não teme! Mulheres assim aprontam e são peritas. Tem álibis idôneos, sonegam informação, sabem se desfazer de qualquer pista. Desconfiam de seus parceiros porque não confiam nem em si mesmas.

As Capitão Nascimento

Vencem por exaustão. Capazes de discutir a relação por dias, observam as nuances do discurso e não esquecem uma só palavra. Exigem pormenores: cor do cabelo, "conhece ela do onde?", "amiga de quem?", ao que o sujeito responde inocentemente seguro de que o suplício está chegando ao fim. É nessa hora, em que o réu está desarmado e confesso, que elas fazem as fatídicas inquisições derradeiras: "Fez boquete?", " Ela era mais bonita do que eu"?

Perfil psicológico: Como normalmente a resposta é sim -a traída é sempre mais feia, simplesmente porque mulher gostosa não faz esse tipo de pergunta- a terrorista tripudia. Ainda que seu forte seja a gente-finisse, ela não perde tempo. É do tipo que dá mole pra vagabundo. Bebe pra ficar soltinha e é capaz de dar vazão a seus instintos mais reprimidos com um mero desconhecido, só porque ele falou aquilo tudo que ela acha que seu macho diz pra outra.

As Condoleeza Rice

Dominadoras, discretas e condescendentes. Sabem que estão sendo chifradas, se fazem de desentendidas, dão corda pro sujeito se soltar só pra pegá-lo no flagra. Mas depois, camarada que segure a onda. A retaliação é norte-americana!

Perfil Psicológico: Mulheres assim não tem estrutura psíquica para perder. Elas nunca trairiam primeiro. Mas quando o fazem em resposta, não brincam em serviço. Pode ser com o irmão do cara, o melhor amigo ou com toda a galera do futebol, tudo ao mesmo tempo agora.

As Suzana Flag

Não são ciumentas, e por isso, sujeito deve ter cuidado em dobro com essas. Estão sempre acima de qualquer suspeita. Amigas da sogra, vestidas com recato, santas na balada, não esperam nem cobram nada de seus machos. Fazem a linha Amélia, até revelarem suas aptidões de lupanar.

Perfil psicológico: Mulher assim não tem superego. Tudo é possível.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Sorriso das Lagartixas

Levava a bandeira e caminhava nu entre os olhares atentos das lagartixas brancas. Em marcha determinada, direcionava-se até a porta da rua. Escancarava. Fazia-se a luz. Ele erguia a cabeça num gesto heróico, sacudia seu semblante em ginga ritmada, e adubava seu planeta, para o delírio escandalizado das margaridas. As pedras recobriam-no de sobriedade; baixava os olhos, reconhecia seu sexo, hasteava sua bandeira e continuava nu.
O jornal caiu sobre uma de suas tulipas. Isto o enfureceu. Era fúria recorrente, pelo mesmo velho motivo. “Por que não acertam as violetas?” Das violetas não gostava. Recolheu o jornal, cobriu o corpo e correu para a rua.
Foi a pé. Fazia isto toda vez que se lembrava de Mariana. Ela só gostava de violetas, mas não sabia regá-las, não tinha a ginga. E ele se sentia mais viril.
Na Consolação, um motorista atropelou um moto boy, mas não o comoveu. Afinal, acontecia todo dia..., e era bom pro solo. Olhou para o corpo morto, sangrento e sentiu fome. Comeria um misto quando chegasse no banco, mas naquela hora ele queria picanha. E ria-se. Lembrava de Mariana, ela teria chorado, bateria com sua mãozinha pequena e branquela sobre seu peito peludo e num ruído miúdo que evidencia a estupidez feminina lhe chamaria de monstro.
Contou os cocôs que encontrava na calçada. Haviam diminuído nos últimos anos. As pessoas agora tinham aquele hábito cretino de andar com as sacolinhas de plástico. E colocavam a sacolinha na bolsa e achavam-se higiênicas. Consternava-se. Via a apatia das plantinhas mal adubadas nos canteiros e sentia-se impotente. Mais impotente do que o morto. Porque o seu ceticismo lhe ensinara a gostar da morte, e ele recobria novamente sua sobriedade, lembrava das pedras, e apressava o passo. Afinal, era vivo e precisava trabalhar. (E o morto agora ia virar terra, jurou plantar uma violeta pra desencargo de consciência. Fazia assim o seu ritual fúnebre e se redimia com as possíveis autoridades dissentes.)
Comeu seu misto preocupado com as horas mas foi em vão. Era feriado bancário, e ele poderia cortar a grama. Deu meia volta, retomou seu caminho pra casa, pelo outro lado da rua pra poder contar novas variedade de excrementos caninos. Além de passar o tempo, ele não sujava os pés. Odiava distrair-se e naquele dia ele já havia esquecido do feriado.
Se Mariana tivesse acordado ao seu lado ele não esqueceria. Porque a Mariana era meticulosa, nunca cometia erros, e ele odiava perder pra ela. Se por um único instante pudesse por suas mãos sobre seu pescocinho branco... talvez o entregador de jornais não acertasse mais suas tulipas.
No cruzamento da Consolação com a Praça Roosvelt, viu o corpo do morto. Continuava ali. O tempo passou pra ele mas não pro morto. Estava ali porque pra morte não tem tempo, nem percurso, nem fezes nas calçadas. Permanecia ali pra lembrar os vivos que morrer é eterno. E um súbito frio subiu por sua espinha, um frio carregado de sentimentalismo terreno. Catarrou no chão e quis chorar. Sentia o pulsar do tempo nas suas veias e desejou que fosse seiva. Olhou pro morto e já não teve fome. Quis juntar-se a ele, naquela dança harmônica dos corpos gelados. Quis roçar seu corpo no dele como as lagartixas nas paredes úmidas. Porque tinha um vazamento no cano da cozinha. Porque a água dos canos vazava e a sua seiva estagnou ali, bruta, gélida e estática. E ele não era planta. Abraçou o morto, levou-o nos braços até os jardins da praça. Tirou suas roupas, cavou uma cova rasa e o enterrou. Nunca mais passou por ali, porque sabia que ali nasceriam violetas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Domingo na praça


Como Clarice Lispector eu empurrava o carrinho do Francisco numa manhã ensolarada de domingo sentindo-me a mãe de Deus. Não que o espírito natalino me contagiasse naqueles princípios de dezembro, e nem que eu deixasse aflorar o meu sentido crédulo, pensando amar a figura nebulosa que tenho de um deus entidade, bem em letra minúscula, de quem eu pouco sei e do que sei, desconfio. É que o Francisco é o meu universo particular, meu Deus maiúsculo e interior, minha idéia de conexão com o transcendente, minha imanência. Já disse e repito, sei que todos nascemos da mesma maneira, todos, sem exceção, mas essa história de maternidade até hoje me parece um grande milagre! E milagrosamente acordei disposta naquela manhã, acordei com o Francisco e com os passarinhos, disposta a ofertar ao meu rebento sagrado, os primeiros raios passos do sol, que acarinham a pele macia dos bebês, sem máculas e nódoas que só se evita com o melar dos cremes, que os bebês, diga-se de passagem, odeiam. Assim que íamos, os três, Francisco, eu e o sol, à pracinha da Sabesp, alegres como a manhã, cantarolando com as pombas que não cantam, as músicas que o Francisco quase sabe cantar: Boi, Boi. Boi... em certas questões, sou reacionária! Não gosto das releituras politicamente corretas que impedem as crianças de tentar matar um gato hipotético para a admiração de uma Dona Chica que nenhuma criança conhece, ou a versão do Boi da Cara Preta que escutamos recentemente: “amiguinho do Francisco que adora uma careta”... Sou contra! Em todas as culturas as canções de ninar são nefastas, abandonam pequenos no topo das árvores, pegam os pequenos no berço enquanto os pais estão na roça, e que eu saiba, nunca houve uma epidemia de insônia infantil em toda a história da humanidade! As crianças sempre dormiram muito bem, obrigada. Eu que não durmo desde que o Francisco nasceu, simplesmente porque ele não deixa, ouso afirmar que a culpa é das músicas, que ninguém mais canta direito!

Mas naquele manhã eu despertei descansada, porque numa média quase bimestral, o Francisco me brinda uma noite inteira de sono, e ela aconteceu justamente na véspera. Eu gosto da pracinha da Sabesp porque é a pracinha do bairro, classe média como eu, sem babás, como eu, sem os carrinhos de bebê em forma de carro que o Francisco também não tem, e quando vê dos outros não pensa em outra coisa, sem as criança com suas melhores roupas de festa com suas respectivas mães, de salto, mal humoradas porque ainda não providenciaram babás folguistas para as inexoráveis manhãs de domingo, em que, em qualquer classe social, as crianças acordam cedo. Lá na Sabesp a mulherada vai praticamente de pijama, com cara de sono, e uma disposição mediana para as idiossincrasias particulares de seus filhos. A lei é : nada é de ninguém! Caiu no tanque de areia é de domínio público. Os pequenos que se acostumem, ora! Eu, e nem elas que também estão com sono, vamos ficar reivindicando a posse de balde, pá, rastelo, peneira... Mas na Buenos Ayres, por exemplo, que eu gosto pela estrutura física, reinam as babás. E elas defendem a propriedade privada de seus patrões, mesmo que seja um baldinho do Barney, e estão sempre munidas de uma caneta para escrever os nomes nos respectivos brinquedos, inclusive nos brinquedos dos outros! Fico louca quando escrevem nos brinquedos do Francisco. Não porque estraga o brinquedo, mas porque estraga o Francisco. Também sou contra essa noção de posse, que já argumentaram que é fundamental para a consolidação da identidade da criança. Acho que a mania do “É meu” não passa nunca, e por isso o mundo está do jeito que está!

Mas como na pracinha não tem essa, e raramente você vai ouvir alguma mãe dizendo “fulano devolve que a bola é do beltrano”, eu estava zen, olhando de longe, tomando um solzinho nas frestas das árvores, admirando meu pequeno Buda, feliz porque sim... E então sentou-se ao meu lado uma mãe de óculos escuros grandes, gente fina, com um sotaque híbrido que delatava seu querido estado de origem. Sua filha tinha apenas três meses. Falamos sobre as coisas que as mães falam , eu aproveitei, orgulhosamente para relatar a minha experiência de mais de 17 meses de amamentação, que super recomendo apesar do mundo ser contra, porque além de todos os benefícios óbvios do vínculo mãe-filho e da praticidade, emagrece que é um azougue! E lá seguíamos, papeando e descobrindo coincidências: profissão, pós-graduação, se a filha dela fosse homem teria o nome do meu filho. Sendo mulher, tem o meu nome. Eu adoro coincidências! E empolgada com a conversa, e vendo que seus pais também foram fazer uma visita na praça, exatamente como meu pai e minha madrasta costumam fazer, detectei que, de todas as mães que tem a ver comigo daquela pracinha, aquela era a mais legal de todas.

Até que fiz a pergunta errada: “Seu marido também mora aqui?”, ao que minha nova amiga respondeu: “Sou viúva”. A história toda eu não vou mais contar, não porque eu não saiba, porque intrometida perguntei tudo, sim, mas porque não precisa. Viúva com um bebê de três meses! E linda, fashion, simpática e sorridente... Voltei para casa, relembrando as coincidências, desejando que essa última não acontece pra mais ninguém no mundo, tentando perdoar Deus, como Clarice. Mas essa falta me pareceu grave demais. Que minha nova amiga siga assim, linda, fashion e sorridente, e que ainda que saiba que essa vida não passa de um imenso oxímoro sem licença poética, há que se seguir vivendo, porque os nossos pequenos precisam dos primeiros raios passos do sol.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008



HORÁRIO DE VERÃO


Há 28 anos, eu me confundo quando chega o horário de verão! Nunca sei o que fazer com o ponteiro. Minha avó mudava o relógio com dias de antecedência, pra dar tempo de errar ou consertar. Ela não tinha nada pra fazer naquele fim de vida, naquele fim de mundo mas morria de medo de perder a hora! Discutia com minha tia-bisavó, horas a fio, até a chegada de um terceiro que balizasse a questão, mas este nunca tinha muita certeza de nada. A entrada do horário de verão, este ano, me fez perceber que eu já não estou na primavera dos meus dias. É a inquietação em controlar o tempo, coisa inédita para mim. Antes eu vivia atrasada, mas nunca estava com pressa. Hoje eu até que sou pontual, mas tudo na minha vida é sôfrego. Deve ser coisa da maternidade!

Na sexta-feira do feriado passei o dia de maiô na piscina com o Francisco, meu filho. O pai dele estava de sunga -mais um indício inquestionável do passar dos anos! Como diziam os meus colegas de escola, homem tem direito de usar sunga até os 13 e depois dos 31. No meio tempo, fica ridículo. E maiô inteiro então? Imagino o Francisco no futuro, num hit do Premê: “O meu pai de sunga minha mãe de maiô”!

No dia seguinte, pela segunda vez, desde que o Francisco nasceu, deixei ele na casa da avó e fui pra balada. Era casamento da Jacqueline, que é judia e árabe, com o Leandro, que é baiano!. Até o Pai de Santo estava lá. Mas era o Pai de Santo da Flávia, que além de judia e árabe, é espírita, budista, daimista... enfim, um culto ecumênico! O jantar demorou pra sair por causa da dança do ventre, e o pai Cidão, que já está velhinho, ficou de mau humor e pegou um taxi. Eu também estava com fome, mas não fiquei de mau humor, e com isso, ganhei uns anos de juventude.

Depois de umas e outras, o pai da noiva foi fazer graça com as dançarinas do ventre com cara de “eu tô pagando”. As filhas se embolavam entre as bailarinas, pra segurar a onda do pai. O irmão mais velho passava com um copo de whiskie na mão direita e de caipirinha de saquê na mão esquerda com cara de “meu pai tá pagando”, até que chegou a primeira dama. Mãe de noiva sempre impõe respeito, sobretudo se ela é árabe e judia. Mas a mãe da Flávia chegou batendo palmas, e ali permaneceu, aplaudindo, de longe, do lado da tia Suzete e da Tia Lili - que pelo avançado da idade, nem levantaram da cadeira. Enquanto isso, a Flávia arrebentava. Porque além de tudo o que eu já falei, a Flávia também é dançarina, e quando dança, (coisa que acontece o tempo inteiro!) não tem pra ninguém. Nem pras dançarinas do ventre! A Flávia dança no trabalho, no elevador, no meio da rua, no meio da sala. É uma dessas pessoas que consegue ser engraçada até na fotografia.

Ligeiramente ébrea que olhei pro relógio e achei que fossem 3 horas da manhã no horário biológico do Francisco. Em cinco minutos consegui deixar o pai dele tão paranóico quanto eu, e nos preparamos pra uma saída à belga- aquela que é mais que francesa! No caminho, ouvindo uma música de nove minutos do Renato Russo, percebi que pela vigésima oitava vez, eu me confundi. Era uma hora antes no horário biológico do Francisco! E ninguém estava atrasado demais...

Ao tirar a maquiagem usando os demaquilantes da minha sogra, (eu que sempre lavei a cara com sabão), percebi algumas rugas salientes na região dos olhos. Lavava o rosto com produto importado, sentindo-me ligeiramente ébrea, cantarolando a música de nove minutos cuja letra eu sei de cór desde os nove anos de idade, percebendo o passar dos anos, e a sabedoria resignada da mãe da Flávia, que aplaudia as estripulias do marido que pagou pela festa. É preciso saber envelhecer com dignidade. Mas eu bem que preferia envelhecer mais gostosa que a dançarina do ventre!







PORQUE EU CRIEI ESTE BLOG

A iniciativa desse blog surgiu por dois fenômenos: o primeiro é chamado second-life. O segundo é o fenômeno das pessoas, que quase como jargão, teimam em repetir “minha vida é uma merda”. Os dois fenômenos me parecem aberrações! O primeiro, chamado second-life,conheço mais ou menos: criei um avatar chamado Galadriel Garfunkel -para bons conhecedores de Lord of the Rings- mas foi só pra poder acompanhar o trampo de um primo meu que anda ganhando dinheiro virtual. O segundo me choca tanto quanto o primeiro. Gerei uma nova vida e mesmo sabendo que todos nascemos da mesma maneira, me sentia portadora de um milagre
É por achar minha vida bem legal, aliás, bem mais legal que a vida da Flora e da Donatella, por ter uma idéia meio nebulosa de Deus, e por ser um expertise em novelas (assistia até o Vale a Pena ver de Novo quando estava de licença meternidade) que criei Minha Vida é uma Novela!

Todas as histórias aqui registradas são verdadeiras e qualquer conexão com a ficção é mera coincidência. O fato é que todas as minhas amigas, diga-se bem, TODAS AS MINHAS AMIGAS são um perfil em busca de um autor. E tem até aquelas que se alguém inventasse, a crítica especializada diria: “O autor carregou a mão na construção desse personagem! Que exagero”. Pois é!

Os absurdos são privilégios da realidade. Transformados em literatura, perdem verossimilhança. Lá vai um exemplo didático: Se na vida real, nevar na Amazônia, nevou na Amazônia e ponto! Fazer o quê? Os cientistas vão buscar explanações, o Al Gore vai ganhar mais dinheiro e todo mundo vai achar que o mundo está virado, mas ninguém vai questionar o curso da vida ou do universo. Mas, se por outro lado, nevar numa Amazônia literária, das duas uma: ou ninguém avança na narrativa por falta de coerência, ou, em constando estes preceitos que segundo Bakhtin são básicos para uma boa literatura, o texto será tachado de ficção científica! Assim sendo, inauguro meu blog que fala sobre a minha vida como ela é: elementar, divertida e cheia de personagens ilustres! Um deles é você - afinal, duvido que algum leitor desavisado navegue por aqui, se não for amigo meu!