sábado, 22 de outubro de 2011

BANCO DE COURO

O cabeleireiro lhe ensinou que as mulheres não envelhecem: ficam louras. Ela prefere acreditar que está mais interessante. É como vinho, como Carla Bruni. Só melhora com o tempo. Com os cabelos devidamente escuros e poucos fios brancos para delatar a idade, ela malha, trabalha, tem grana para comprar maquiagem importada, e ao fígaro -divaga em silêncio- compete o design de suas sobrancelhas. Prefere seu corpo hoje ao que era há uma década, quando a ditadura da cintura baixa a fazia odiar sua barriga. Hoje ela aposta no decote. E decote não depende de peito. Depende de lingerie.

Sabe que salto alto favorece as batatas e se equilibra nas alturas. Desdenha, com uma simpatia nostálgica, da chinesinha xexelenta de xiboquinha e cipó cravo que seu pai jogava no lixo quando ela voltava do forró. Sob protesto, ela argumentava: todo mundo devia ter só um sapato. Hoje tem sapateira. Seu closet é quase tão lindo quanto o da Carrie Bradshow. Quando sente fome nas horas tardias, não pede pizza, pede Temaki. Tem iphone, pacientes, amigas, um pai fanfarrão e uma solidão de gastrite dessas que costumam bater nas madrugadas frias. No verão é muito mais fácil ser solteira. O sol se encarrega dos prazeres da epiderme, o corpo corresponde em bronzeado, e nada como uma marquinha de biquíni para aplacar os ânimos de uma mulher aos trinta anos.

Os pacientes já pagam seu preço na íntegra. Não há nada que não seja maduro na sua conduta. A não ser pelos tipos raros que acordam ao seu lado, quando ela se excede na balada. São sempre iguais, o que varia é o endereço da casa de seus pais porque os caras com quem ela se amanceba não são emancipados: sonham em viver em Fernando de Noronha, não tem grana pra pagar a conta. É sempre para um desses que ela acaba dando mole. E quando são muito fofos e bons ouvintes, a relação pode se alastrar por dois anos, sem que ela jamais os apresente como namorados. De noite, reza para os anjos da guarda e conversa com Santo Antônio. No réveillon, baixo a chuva de fogos em Copacabana que ela vira pela primeira vez, o Santo lhe aferiu: “este ano o projeto é de mãos dadas”. Mas estamos em setembro e ela segue solitária.

Essa noite ela ainda não rezou porque pretende dormir muito mais tarde. As amigas estão no banheiro do seu apezinho alugado em Perdizes. Ela tem um estojo de maquiagens invejável. E aprendeu o ofício no site da Julia Petit. Está perfeita: batom nude, e o nude é o novo Black, diz sua melhor amiga publicitária. Olhos reforçados em lápis preto, estilo Amy Whinehouse, cabelo de gringa (aquele coque solto em que os fios se esparramam pelos ombros despenteados), blusinha tomara que caia, calça justa, sapato meia pata. Hoje ela vai pra guerra. A balada é corriqueira. Festinha na laje, casa da Fecê, amigo desde a quarta-série. A mesma balada brancodrama dos últimos 20 anos. É amiga do DJ e o DJ sabe que a mulherada dança melhor em português.

Ás vezes o esquenta é bem melhor que o evento. Amigas reunidas experimentando roupas, exibindo as calcinhas novas, maldizendo as próprias bundas, exorcizando celulite, tomando caipirinha de saque com adoçante, obviamente. Camarada faria tudo para estar ali, invisível, vendo as meninas de topless, troca- troca de blusinha, birita, baseado, gargalhada e apenas uma pauta monotemática, em várias derivações que nunca perdem o eixo: homem. Só falam de homem. As casadas reclamam, as solteiras também, comentam os gatinhos da repescagem. Ela só tem esperança ali: na repescagem. Um dia, um cara incrível, separado e superado o trauma, ainda há de seu príncipe. Mas essa noite a diversão começou em casa e não tem problema se não tiver ninguém interessante na laje do Fecê, o que aliás, é o mais provável. Figurinha repetida não completa álbum, afinal.

Saem em dois carros, param no posto, compram cerveja e gelo. Chegam naquele horário estratégico: balada bombando, breja rareando e oito deusas com oito caixas e um saco de gelo na mão. Se sentem numa propaganda da Brahma. Quase isso, à diferença que tem pós graduação, um trampo desafiante e muito repertório. Ela, além de boa leitora, cinéfila, gourmet e fashionista, manja de futebol. E manja de verdade. Não como a maioria das mulheres que arrisca falar de futebol só pra fazer pressão. Ela é flamenguista. E sabe do que está falando. Assiste mesa redonda no domingo, e não troca por nenhum filme com o Rodrigo Santoro. Futebol, pra ela, é coisa séria.

Por isso mesmo, os caras, essa noite já chegam aloprando. O Flamengo perdeu a liderança para um time paulista, e ali, na laje do Fecê, só ela, ninguém mais, é flamenguista. Quando se dá conta, breja numa mão, cigarrinho de filtro branco na outra, do alto de suas sandálias meia pata, está ela, boca suja, falando alto, discutindo o impedimento com um conhecimento de causa arrebatador. Bate um bolão, definitivamente, e também por isso mesmo, boa parte da rapaziada não se atreve: quem banca? Bem sucedida, boa de verdade, bom gosto, bom berço, bom papo e boleira. É muita responsabilidade. E ela vai colecionando amigo macho.

Começa o samba. Ela vai pra roda. A meia pata atrapalha um pouco, mas ela samba direitinho. Está totalmente confortável apesar do salto. É uma noite feliz, e que importa, no fim, se vai dormir sozinha? Mas é quando menos se espera uma inflexão que ela acontece, assim como um acidente de carro. Ela samba, dá voltinha, paradinha, bambeia, faz que cai, não cai. Ele a segura. Como é bonito. Suas mãos na cintura fina dela. Nunca tinham se visto. Era primo do amigo de não sei quem. Não falam. Só beijam. A saliva combina. A pele combina. O samba é romântico.

Ele é corinthiano, o que, para uma flamenguista, é menos problemático do que ser são paulino. Ele é solteiro. Ele é CLT. Ele conjuga os esses. Ele serve seu copo de vinho. Ele oferece o casaco quando ela sente frio. Ele a respeita. Ele carrega sua bolsa. Quando ele abre a porta do carro – prática que somente um percentual mínimo de cavalheiros de rara estirpe ainda preserva- o carro da porta em questão é um AUDI.

No caminho, ela só pensa numa coisa: “Por que um AUDI?”. Se ele tem cem mil reais para torrar num carro, por que um Audi e não um Land Rover, ou qualquer outro carro que justifique gastar tanto em quatro rodas? Um Audi não encara barranco, estrada de terra, buraqueira. Um Audi não é econômico. Audi é carro de tiazinha que não tem competência pra dirigir uma blazer. E ela por princípio, abomina tiazinhas de blazer. “Por que um Audi?” . E se for dos pais dele? Se for dos pais dele, ela já sabe que ele é do tipo que sonha em viver em Fernando de Noronha. E pior: antes um pé rapado que mora com os pais do que um playboy que mora com os pais. Ela não sabe bem porque acredita nisso. Faz parte de seus princípios. Talvez porque sua vida tenha sido uma eterna labuta. Talvez porque tenha se acostumado a viver com o constante problema da falta de grana... Talvez porque a simples ideia do investimento num carro paga pau com banco de couro- a mesma grana que poderia dar entrada na casa própria que ninguém da sua família jamais teve- a deixe com náuseas. Ela bebeu pouco. Mas o cheiro do couro é foda!

Ela pede pra ir pra casa. Ele respeita. Abre a porta do carro, ela não dá explicações, nem beijos, nem esperanças, nem telefone. Bate a porta do Audi e entra na portaria. “Por que lindo se dirigia um Audi?”. "Por que dirigia um Audi, se lindo”. Está tudo errado! Não vai rezar pros anjos da guarda. Não vai falar com o Santo. Hoje ele passou dos limites. "Um Audi!!!"

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ERA UMA CASA

Nem bem o velho morreu, o caseiro deu pra beber de verdade, em copinho de dose, metade pro santo, outra pra dentro. A viúva não sabia como proceder. Sabia dar ordens, comandara a cozinha como uma estadista, mas o caseiro era de uma natureza inapreensível. Bebia demais e ameaçava as filhas. A avó que quase só tivera filhos e netos macho, virou líder de um matilha de amazonas.

Quando o caseiro enamorou-se de uma cadela dálmata, a resignação tomou o lugar de qualquer outro sentimento que pudesse aflorar dentro dela. Ele consumara o ato com o cão de guarda do vizinho. Ela que tinha uma idéia nebulosa do amor e dos animais, segurou o livro de orações e decretou, “Estou viúva”, não sem antes despedir o herege.

Nunca mais tricotou, nem cozinhou, nem zelou pelos netos, nem mudou o canal da televisão. Sentou no mesmo canto esquerdo do sofá em que se sentara nos últimos 40 anos e esperou o tempo passar. Os sofás se dispunham em L, separados por uma mesa cantoneira, e na outra ponta, do outro sofá, sentava Domênica Bertotti, irmã de sua mãe. Domênica esperou a morte por 33 anos e 33 dias. Aos 100 anos, caiu no chão e disse “Chega”. Até morrer, um par de anos depois, seria a única coisa que diria com entusiasmo, alem de murmurar algo em piamontês e clamar por Antônio, que ninguém soube quem foi.

“ Elas ficam”, disse a viúva ao caseiro, esquecendo que não se olha nos olhos de cão raivoso. “Ir com o senhor pra onde, pai?”, questionou a caçula, em tom de súplica, como se a pergunta pudesse expiar sua culpa. Ainda era apenas católica. Ele esbravejou contra as filhas e babou. A mulher tentou acalmá-lo mas levou um tapa no rosto. Para uma mulher decente, um tapa basta. Seu coração não era adestrável. Que fosse pro bar procurar outra cachorra.

Ele obedeceu. A dálmata estava presa no canil. O bar estava a 2 km dali. A noite preta e branca maculava sua dignidade. À noite, ele enxergava como os cães: puro rastro. Queria matar as filhas, a esposa, a patroa e a cadela. Iria matar as filhas, a esposa, a patroa e a cadela. Todas juntas. Querosene e cachaça. A sarça ardente. Pisava as brasas de São João. Só tem medo do fogo que nunca foi pro inferno. E sua vida fora uma sucessão de inferninhos enrustidos, entre o fardo e farda, sua decente ocupação.

“Foi no dia em que perdi meu emprego, minha mulher e minhas filhas que eu segurei na mão de Deus”, diria o caseiro, depois de encontrar Jesus. O encontro seria furtivo e arrebatador. Mais perene que se arranjado. Seu Zé, o motorista da viúva, por dentro dos pormenores, correu para lhe estender a mão: era evangélico. Porque pra estender a mão pra desvalido, drogado, doente, ninguém como um evangélico. E o caseiro foi à igreja. Primeiro encontrou Jesus. Depois falou com ele. E por fim, virou pastor e falou em nome Dele. Quanto mais sujo o passado do regenerado, mais imaculado o seu presente. Ninguém mais se lembrou da dálmata.

A viúva ciente da inflexão que parecia obra divina achou mesmo que eram bem tortas as linhas do Senhor. Não ia a igreja porque era Kardecista. Recebia cartas psicografadas do marido que não fora epistolar e nem cristão. Mas acreditou nas cartas e passou a confiar no caseiro como ele mesmo confiaria. Sabedoria anciã que releva o que não move moinhos. Olhou uma das placas da parede da cozinha e repetiu, como se fosse um epitáfio: se a sorte te der um limão, faça uma limonada. Sozinha, naquele fim de mundo, naquele fim de vida, zelando pela tia centenária, guardada por um caseiro zoófilo, era melhor mesmo que o marido estivesse ciente, ainda que fosse em outro mundo. A vida seguia em frente, enfim.

Nasceu o segundo neto 3 meses depois que o avô morreu. Domênica Bertotti dizia que o rebento era a reencarnação do velho. Havia muitos indícios. Não eram só as datas de óbito e nascimento que coincidiam com o tempo espírita de retorno a terra. Eram também os fatos, os traços, os trejeitos, as manias e o gênio forte. Velhos são gabaritados em interpretar a personalidade dos bebês. Já viram muitos. “Deixa eu gastar o meu”, dizia a avó, apertando o rebento, como se a vida não desse tempo.

14 anos depois, quando enfim a viúva também morreu, um padre que passava pelo velório se ofereceu para rezar uma missa. Ele rezou, mas foi inapropriado, porque a finada era espírita. Na sua crença, estava em um hospital, assimilando a vida após a morte e curando a alma das mazelas terrenas, para então chegar ao gramado verde, abraçar o marido, a italianada toda e morrer, feliz para sempre, ou até reencarnar. Mas os terráqueos rezaram missa no velório, muito embora ninguém ali soubesse rezar. Geração de ateus – pagãos diria a velha- mas a velha estava morta, e morto não tem vontade.

“Locação de filme pornô”, disse o caçula da finada. “Meu pai sempre sonhou em ver uma putaria na piscina”. Não era inconcebível que 24 horas depois da orfandade o caçula tivesse idéias tão hereges. Naquela família, prerrogativa de céticos, o luto não prescindia de tristeza. Tomaram cachaça, brindaram os mortos e quando todos pensavam que o latifúndio seria posto a venda nem bem o corpo da matriarca esfriasse, nada mudou.

A casa no fim do mundo ficou vazia da velharada mas era como se todos eles continuassem por lá. O outro filho, o primogênito, tomou as redes da propriedade. Não deixou que tirassem um retrato da parede: nem o Jesus dourado e a coroa de espinhos. A pintura do Arco do Triunfo continuava imperando na parede da sala, embora ninguém ali conhecesse Paris, e ao lado dele, a porcelana pintada a mão pela Tia Laura, que nunca fora pintora.

O que são os espíritos senão a matéria morta da nossa memória? As velhas continuavam lá. E como não continuar se todos os seus pertences permaneciam ali, como um mausoléu de quinquilharias embalsamadas, um museu da saudade? “ Tia Domênica era a criatura mais espiritualizada que eu já conheci”, advogou o caçula herege . “Antes mesmo de morrer, ela já estava em alfa, tocando harpa com os arcanjos do senhor”. Talvez ele estivesse certo e Domênica já tivesse desencarnado há muito tempo. Mas e se não tivesse?

Quando nasceu Sebastião, com seus grandes olhos que foram verdes nos primeiros meses, ele gargalhava risos de bebe aos ventos. Certo dia, ria tanto olhando para o nada, que a gente soube: “As velinhas estão gracejando com ele”. E era tanto gracejo que feria o senso comum da família, que por definição, não acreditava em nada alem dos direitos humanos. Mas quando os fantasmas vieram puxar o pé dos dormentes, era hora de fazer alguma coisa. O caseiro orou. A esposa, com as palmas das mãos erguidas, sussurrava palavras repetidas em nome de Jesus.

“ Livra essa casa do mal, meu pai”.

Mas que mal havia em continuar morando na casa em que sempre se morou mesmo depois de morto? Foram quase cinquenta anos afinal. Mas as velhas eram espíritas e refutavam as orações dos crentes.

No quarto de dormir onde a avó dormira durante toda sua vida havia um retrato em óleo de seus 4 anos, com laço de fita na cabeça. O dia em que a menina velha saiu da parede, Lia ainda estava grávida. A avó apareceu num entressonho, naquele momento nauseabundo em que o corpo adormece, e a razão desapegada das entranhas sabe muito bem que esta dormindo. “Acorda”, gritava sem som. A alma de Lia escutava arguta, tentando avisar o resto. A menina avó saiu do quadro e falou pouca coisa: somente aquilo que uma menina de 4 anos falaria. Contou alguma coisa de outrora. A historia de como a mãe matou uma galinha. Aquela que morreria de Parkinson, adquirido ainda na mocidade. A que engravidou de um espanhol de origem desconhecida. A menina avó, do pai, herdara tão somente o nome: Gómez. Bertotti Gómez, que ela borraria de seus registros como uma nódoa, uma gota audaz de azeite que insistiria em macular seus hábitos. A avó nunca seria bela. A menina avó o era, ali naquele sonho a óleo sobre tela, como o são, na graciosidade inconteste dos infantes, as crianças de qualquer tempo: laço de cetim caído para o lado nos cabelos que no futuro exalariam spray Karina. Toda ela era olor de tinta fresca. O quarto, com o lustre de lança invertida, apontando para baixo, para a perna de quem recostasse no canto direito da cama, a ameaça fantasma, o tremor da terra que não tremia naquelas instancias. Só naquela triste e leda madrugada. Naquela em que Lia jazia sem pernas, paralisada, lançada pelo lustre feio da década de 60. A avó aos 4 anos de laço no cabelo espreitando o estancamento, a curiosidade diabólica da primeira idade. A perna doía suas azias de grávida, e dentro dela, crescendo e aparecendo, Sebastião reinava entre suas costelas. Torcia o sudário que cobrira o travesseiro, a cabeça branca do avô naquele canto direito da cama que nunca teve medo do lustre. A cabeça que nunca separou da perna, sua barriga grande e cheia de sardas. A barriga de Lia, grande e cheia de vida. Sonhou

Depois contou ao pai a experiência borgiana como se o tentasse a remover a tela dali. Mas ele via, confundido, Dorian Gray em suas súplicas. Lia desistiu. Deixou que o museu imobiliário reinasse incólume. Ele precisava daquelas lembranças.

Quem são os fantasmas senão aquilo que fazemos deles? A lembrança matizada na casa. O DNA.

A menina avó começara a gracejar para o Sebastião ali, mas Lia não tinha percebido. Foi ele nascer e produzir seus próprios risos para ganharem amizade sincera. E passaram-se a querer bem. Bem queridos, os dois. A viúva morta e o bisneto vivo. Mas o primogênito pusera a casa a venda. Achado o comprador, restava ainda saber o que fazer com os móveis. Se a família vendesse tudo, herdariam os felizes novos proprietários, a matéria morta e incerta dos fantasmas que ouviam rádio?

EU NUNCA

Eu nunca beijei mulher, eu nunca roubei, eu nunca matei uma barata. Eu nunca usei cinta liga, eu nunca tive cabelo curto, eu nunca passei no Santa. Eu nunca li Dostoievski, eu nunca comi cobra, eu nunca tomei êxtase, eu nunca fui cd mas também nunca repeti de ano. Eu nunca fiz suruba, eu nunca fui pra Espanha, eu nunca esqueço. Eu nunca soube onde começava e nunca disse que ia parar.

Eu nunca faço esportes, eu nunca ligo pra minha vó, eu nunca esqueço de jurar ligar mais vezes, eu nunca cumpro no final. Eu nunca rezo, eu nunca espero, eu nunca tive medo da morte

Eu nunca pensei que fosse tudo tão depressa, eu nunca soube que doia tanto, eu nunca quis ofender. Eu nunca que diria uma coisa dessas, eu nunca penso antes de falar, eu nunca paro de fumar, eu nunca pedi por isso, eu nunca pedi outra coisa, eu nunca peço, eu nunca penso que quem não acredita nunca alcança. Eu nunca diria uma coisas dessas, de nunca diga nunca.

Eu nunca mais dancei forró, eu nunca mais dormi fora, eu nunca mais comi 7 belo, eu nunca mais falei com elas, eu nunca mais tive vergonha, eu nunca mais tive medo. Eu nunca mais confesso, eu nunca mais pergunto. Eu nunca mais fui a mesma. Eu nunca mais dormi, eu nunca fui muito bonita e nunca mais fui gostosa.

Eu nunca amei tanto, eu nunca chorei tanto, eu nunca pensei que pudesse amar tanto um ser que eu nunca tinha visto. Eu nunca soube que a gente ama mais a cada dia. Eu nunca amo do mesmo modo, mas eu nunca deixo de amar. E nunca fiquei dois dias longe dos dois. Eu nunca dei leite de vaca, eu nunca dei palmada, eu nunca fiquei sem saudade.

Eu nunca me contenho, eu nunca me reprimo, eu nunca passo do ponto. Eu nunca minto, quando nunca rola, quando nunca chego, quando nunca ninguém vai embora. Eu nunca finjo que nunca soube que nunca mais. Nunca, nunquinha. Eu nunca brinquei de eu nunca.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Chuva Ácida

A CET registrava 200 km de lentidão na capital paulista, índice muito acima da média para o dia e horário. Marginal Tietê alagada, morosidade no corredor norte e sul e pânico deflagrado na entrada do túnel Ayrton Senna. Arrastões e blitz se espalhavam pelos pontos de maior concentração humana motorizada. Nenhum helicóptero pode registrar os ocorridos. Chovia há dias e chovia pedras. Os carros buscavam um estacionamento coberto aonde fosse, a fim de evitar danos ao capô. Os taxistas eram os mais prudentes. Um alvará, num ponto como o aeroporto de Guarulhos, valia 500 mil reais.

“Prefiro andar pelas beiradas das ruas, que é onde alaga menos.”

“Mas o carro é seu ou é da frota?”, perguntou Bianca, recém chegada da Bahia, tentando atinar a resposta que acabara de ouvir, ainda um tanto indignada com os 120 reais que tivera que pagar no aeroporto para ser transportada até sua casa na Vila Madalena.

Para o taxista a pergunta era uma ofensa. São Paulo é uma sociedade em que as castas se preservam nas certezas imprecisas conjecturadas sobre o desconhecido. Um taxista tinha que pertencer a uma classe menos empoderada, razão pela qual evitava o centro das ruas quando a cidade alagava. Não aprendia empiricamente como os trabalhadores dos campos. Ou das praias paradisíacas em que paulistanas tomavam cachaça da terra e se enroscavam com nativos sarados. Os taxistas trafegavam pelos cantos entupidos, beirando as bocas de lobo, relembrando os tempos em que a administração pública pertencia a Paulo Maluf. Uma paulistana da Vila Madalena não suspeitaria jamais, que o um alvará da guarocoop pudesse valer o mesmo que o apartamento que ganhara de seus pais, na rua Harmonia.

“Moço, vou descer aqui mesmo”, disse ela, quando o táxi dobrou a esquina da Rodesia com a Jericó. Era quarta-feira, hora do futebol. As meninas estariam no bar e ela nem precisava passar em casa. O espelho do avião confirmara: a pele estava preta, sem máculas, a marca do biquíni valorizava o decote. “Deusa”, disse para si. E decidiu esquecer o capoeira que subia em coqueiros. As leis higienistas da cidade serviam, pelo menos, para alguma coisa. O lado de fora era e o melhor lugar da balada sempre. A chuva arrefecera. As brasas iluminavam a calçada. Um abraço coletivo, a mala que veio da Bahia, a surpresa da mulherada. Tropeço nas palavras e nos torcedores, histeria, futebol e decote na ditadura insana da noite. Bianca era um pouco anacrônica. O colágeno não correspondia a sua idade. Era bem sucedida, gostosa, assertiva. Mas passava as ferias na eterna Bahia de sua adolescência, tão remota para as amigas, disputando os mesmos nativos com garotas que tinham a metade da sua idade. “Chega de capoeira, cara acampado e coroa da night, Bianca! Porque você não pega alguém decente? ”, diziam as amigas, casadas e carentes de elogios. Seus caras decentes eram homens de poucas palavras: sem ciúmes, sem grana e sem graça. “Meu pai me ensinou que eu sou a cerejinha do bolo”, guardava para si. Não casaria só porque era hora de casar. Não passaria o resto da vida trabalhando em terapia uma forma eficaz de levar qualquer casamento, sentindo, a cada soluço, uma necessidade inexplicável de doar seu charme e outros atributos naturais de sua linhagem. Bianca era gata. Sua mãe era gata. Sua avó era gata. “Me deixa”, dizia, quase arrependida de não ter voltado direto pra casa.

Na madrugada se perdem os pruridos, a noção das horas e as palavras gastas. Na madrugada, uma mulher de trinta anos tem apenas idade suficiente para dirigir sozinha e fugir do bafômetro. Mas Bianca estava a pé. O argumento era safado e ela não resistia a um caudal de palavras sujas. “Melhor não”, mentiam os lábios enquanto o corpo todo dizia sim. O carro de um desconhecido entrava pela garagem e as mãos do motorista a acariciavam por baixo de uma penugem discreta, que insistira em crescer durante as férias, estragando aquilo que as profissionais da cera batizaram, por catalogação do ofício, de depilação semi intima e que podia variar de 20 a 43 reais. Transaram nem bem ele fechou a porta do apartamento.

Acordou pelada, no chão da sala. Os olhos turvos reconheceram suas roupas espalhadas pelo chão. “A mala, puta que pariu”. Queria sair de lá sem ser vista, dar bom dia ao porteiro e chegar em casa, pela primeira vez, desde o natal.

“Acordou, gatinha?”, disse um cara de toalha e havaianas. Ela acenou com a cabeça. “Quer café?”, ele perguntou, enquanto colocava água para esquentar. O fogão era de inox. A cozinha se integrava a sala como no cenário de um filme em que o George Clooney fazia papel de solteiro. Do galã, o cara de toalhas e havaianas na sua frente só tinha os grisalhos. “Os pentelhos ficam grisalhos?”, vagueou seu pensamento sem conseguir lembrar. “Você sabe da minha mala?”. Ele negou. Nem sabia que trazia uma mala consigo. “Preciso ir”, ela disse. E ele não disse nada para impedir. Ela foi. Desceu as escadas correndo. Estava na porta de entrada de um prédio sem elevador, numa avenida larga, de mão única, num canto desconhecido de São Paulo. Acenou para um taxi. A precipitação se insinuava mais uma vez sobre a cidade. “Só chove nessa merda”.

O motorista tinha mais de sessenta anos. “Moço, eu vou pra Vila Madalena”, disse Bianca.

“Eu posso te levar até lá, mas vou por dentro e vai ficar mais caro, porque a marginal tá interditada desde ontem”, advertiu o taxista, sem olhar pelo retrovisor.

“Ahã”, respondeu Bianca tentando adivinhar em que fim de mundo tinha ido parar naquela madrugada. Estava na zona sul, e ela não conhecia nada alem da ponte, Butantã e Barra Funda. Sentiu o celular vibrar no bolso da jaqueta. Ainda tinha celular, comemorava seu superego, enquanto do outro lado da linha, a voz de Nana a fazia recordar que o que fica oculto simplesmente não aconteceu:

“Cadê você, sua doida? Sua mala ficou no bar e você foi embora de carona com aquele cara que mora em Interlagos.”

“A mala tá com você?”

“Não! Dei a mala pro França, porra”. Era obvio que a mala estava com ela. Ainda bem que a mala estava com ela. Ela teria perdido tudo: a câmera fotográfica, a rasteirinha da Cas, os biquínis da Mulata, tudo que ela cuidara com tanto cuidado no cafofo do capoeira para que não se confundisse com a bagagem das adolescentes argentinas que acampavam no quintal.

Lamentou não ter ganho a botinha preta no amigo secreto da família. Lembrou disso no taxi. A avó disse: “Você já tem tantas. Por isso comprei uma bolsa”. Ela gostou da bolsa, mas era de uma cor laranja, difícil de combinar. Precisava mesmo da bota preta, embora tivesse uma marrom e uma verde musgo. É que pra determinadas ocasiões e peças, a bota tinha que ser preta. Mas nem valia a pena explicar. Todo natal, depois da catarse, a casa da avó esmagada em papel de embrulho e fruta seca, era sempre a mesa sensação de vazio: faltou um biquíni, um cintão, um vestidinho branco pro réveillon. Sempre faltava alguma coisa. As gotas iam ficando mais espessas, viravam gelo e caiam sobre o pára-brisas do taxi. Agora só faltava a mala, que estava com a Nana, e ai sim, chuveiro, cama e chega de saudade. Mas o taxista tinha medo da geada. “Da ultima vez, moça, meu vidro ficou estraçalhado. Eu vou encostar no estacionamento coberto do Extra, se você não se importar”. Ela se importava. “Vc não disse que ia evitar a Marginal?”, questionou. Mas o taxista tinha seus motivos. Bianca precisava vomitar a cozinha de inox do coroa grisalho mas não disse nada. O cabelo cinza, a cozinha cinza, a manhã cinza. É que faltava ar.

Não conseguiu abrir as janelas que o taxista travara. Gorfou no banco de trás. Desceu do carro sem pagar, se esquivando dos xingamentos, no meio da tempestade. A maquiagem escorria pelos olhos de trinta anos, a lente de contato coçava pedindo higiene. Entrou no banheiro do hipermercado. Uma moça feia espremia espinhas diante do espelho. Feia demais, ela pensou, lembrando de Hilda. Aprendera com a avó a fazer uma cara simpática quando olhasse pro espelho. Mas ele nos flagra nas feições mais renegadas. Estava ensopada diante de um espelho em um hipermercado da zona sul. Lembrou da canoa, do trator, do barco, dos dois ônibus e do avião que tomou pra voltar pra casa. “São Paulo não é para amadores”.

Saiu do banheiro e comeu um pão de queijo. Era afeita a evitar carboidratos mas hoje não era dia de nada. Hoje era um hiato, um momento fora do tempo. Mas não como quando se reencontra um amor de infância e as horas transitam nas bordas. Hoje era um buraco negro. Toda a massa universal convergia para um ponto único, escuro e inexorável, o orifício da sua vagina bêbada. Queria ligar pra casa. “Pai, cheguei”. Não tinha coragem. A cerejinha do bolo estava toda suja de chocolate.

Chegou a assuntar com um manobrista se algum ônibus ia pra zona oeste mas ela não entendeu a explicação. Sentou no chão de baixo do toldo, deixou o tempo esquentar, ou esfriar. “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”. Lembrou do contínuo aspirante a motoboy que trabalhava na agência de propagandas do seu primeiro estágio. Ela beijou por desencargo de consciência de classe e o analista perguntou: “Seu corpo, por acaso, é uma ONG?” Se a vida acabasse ali, como um meteoro sobre a lanchonete do Hurley, quais seriam os últimos pensamentos? Para onde esses pensamentos vão depois que a gente morre? E se ela fosse estéril? E se tivesse unzinho pra ouvir estéreo...

Já era de noite quando conseguiu um novo taxi. “Pra Vila Madalena”, disse, sem pedir por favor. Não olhou pro motorista, pro meio fio, pras bocas de lobo, pra rua em curva, pra chuva que arrastava os sacos de lixo. Queria ficar assim, sem olhar. Só o OHM dos eunucos de laranja. Ah, os eunucos de laranja... “Rua Harmonia, né?”, perguntou o taxista, virando à direita. Ela pagou sem falar nada. Bateu a porta do taxi, olhando pro outro lado. “Tem geladeira não?”, ele disse sem ser escutado. Chovia demais.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

MÃE SOLTEIRA

Ela fica imóvel, incapaz, um gesto inacabado. As mãos na altura do peito, o peito disparado, o cotovelo tenso, o dedos estendidos, o copo no chão, os cacos na barata, a barata viva, os filhos dormindo no colchonete no chão. O chinelo no pé, o pé plantado, a boca aberta, sem respirar. O grito enforcado, a antena mexendo. Olho no olho da barata sem olho. A cor de queimado.

A barata estátua.

A barata anda, a perna pula, depois a outra, o grito escapa, a barata passa, os filhos no chão. O grito estria, a criança acorda. A outra não. A barata gira a criança anda, a outra dorme, ela pula, a barata voa, a criança grita, a outra chora. Ela chora, a barata grita, as crianças correm e os cacos no chão.

O chinelo pula, as crianças pulam, a barata pula. O pé cortado, o chinelo virado, a barata não morre. A barata some, as crianças dormem. O olho abre, o corpo deita. O buraco é escuro. A vigília é longa, a noite tarda. Ela sonha. A barata chora.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

OS 10 MANDAMENTOS DE UMA BOA BALADA

1) Festa boa é festa cheia
2) Todos os vizinhos deverão ser convidados
3) Ficar mais bêbado que o anfitrião é falta de educacão
4) Banheiro não pode ter espelho
5) Homem mija na rua
6) Há de ser oferecer cerveja (ainda que a festa seja em uma vinícola)
7)Mulher dança melhor em português
8) Não fazer cara de cônjuge
9) O número de homens jamais deve exceder o de mulheres
10) Nunca chame um policial de “seu guarda”!

terça-feira, 5 de abril de 2011

MULHER ENCIUMADA, OFICINA DO DIABO


De seus digníssimos respectivos elas sabem a senha do email, facebook e do twitter. Checam torpedos, canhoto de cheque e recibo do cartão de crédito. Concatenam datas e horários, refazem traçados, e catalogam internamente um dossiê de eventuais ou obsoletas rivais: as que foram importantes e ficaram feias, as que foram feias e hoje são importantes, as que viraram mãe, as novatas, as semi-adolescentes, as deslumbradas, as de muito longe, as bem chegadas, as estagiárias, as atrevidas e as acima de qualquer suspeita. Toda outra mulher não passará desapercebida. E são ardilosas. Nem Julian Assange suspeitaria. Quando é dada a hora de mandar o verde, recorrem ao sexto sentido e a intuição feminina: “Eu senti”, argumentam, e o cidadão flagrado, estupefato, acredita piamente na perfídia feminina, desde os tempos das 1001 noites.

Já dizia Paulo Vanzolini, o pândego: “Nada pior do que mulher despeitada, porque nenhuma blusa lhe assenta”. Mulher despeitada é mulher contrariada. Mulher que descobre, na literalidade das coisas, que seu homem está comendo uma mulher mais peituda. O que seu homem não suspeita é que por trás de tanto ciúme, há uma devassa cheia de amor para dar. Para dar pros outros. Estão por toda parte. Basta o cidadão entender com que sorte de Sherazede está amancebado para proteger-se, se for capaz:

As Agatha Cristie

Elas recriam enredos tão sofisticados que o sujeito mesmo jamais cogitou que pudesse ter rolado tanta sacanagem naquela bobagem que cometeu no carnaval. Ainda assim elas vão escarafunchando pistas, inventando problemas e quando o adúltero se dá conta, se entregou só pela cara de espanto: “Caraca, como vc ficou sabendo???”.

Perfil psicológico: Quem não deve não teme! Mulheres assim aprontam e são peritas. Tem álibis idôneos, sonegam informação, sabem se desfazer de qualquer pista. Desconfiam de seus parceiros porque não confiam nem em si mesmas.

As Capitão Nascimento

Vencem por exaustão. Capazes de discutir a relação por dias, observam as nuances do discurso e não esquecem uma só palavra. Exigem pormenores: cor do cabelo, "conhece ela do onde?", "amiga de quem?", ao que o sujeito responde inocentemente seguro de que o suplício está chegando ao fim. É nessa hora, em que o réu está desarmado e confesso, que elas fazem as fatídicas inquisições derradeiras: "Fez boquete?", " Ela era mais bonita do que eu"?

Perfil psicológico: Como normalmente a resposta é sim -a traída é sempre mais feia, simplesmente porque mulher gostosa não faz esse tipo de pergunta- a terrorista tripudia. Ainda que seu forte seja a gente-finisse, ela não perde tempo. É do tipo que dá mole pra vagabundo. Bebe pra ficar soltinha e é capaz de dar vazão a seus instintos mais reprimidos com um mero desconhecido, só porque ele falou aquilo tudo que ela acha que seu macho diz pra outra.

As Condoleeza Rice

Dominadoras, discretas e condescendentes. Sabem que estão sendo chifradas, se fazem de desentendidas, dão corda pro sujeito se soltar só pra pegá-lo no flagra. Mas depois, camarada que segure a onda. A retaliação é norte-americana!

Perfil Psicológico: Mulheres assim não tem estrutura psíquica para perder. Elas nunca trairiam primeiro. Mas quando o fazem em resposta, não brincam em serviço. Pode ser com o irmão do cara, o melhor amigo ou com toda a galera do futebol, tudo ao mesmo tempo agora.

As Suzana Flag

Não são ciumentas, e por isso, sujeito deve ter cuidado em dobro com essas. Estão sempre acima de qualquer suspeita. Amigas da sogra, vestidas com recato, santas na balada, não esperam nem cobram nada de seus machos. Fazem a linha Amélia, até revelarem suas aptidões de lupanar.

Perfil psicológico: Mulher assim não tem superego. Tudo é possível.