sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A BARRIGA

Eu era pequena e eles me levavam nos restaurantes de noite porque não podiam pagar uma babá. Eu deitava no colo dela, com os pés sobre outra cadeira e escutava seu estômago digerindo o jantar. Os líquidos, então, para mim eram só bolhas. A barriga dela nunca tinha sido habitada por outra pessoa alem de mim ou da comida cubana e das cervejas- eu me lembro, era num restaurante cubano, e meu prato preferido era língua. Depois a barriga dela cresceu e eu me enfureci com dois meninos que chamaram ela de gorda. Eles deviam ter o meu tamanho, e eu, indignada, sem saber que o sentimento se chamava assim, dizia, se acaso eles não viam que na barriga dela tinha um bebê, e não comida. Porque eu sabia como a barriga dela ficava mesmo quando entrava muita comida. Eu deitava nela e escutava a digestão. Eu sabia de tanta coisa dela e do barulho da barriga dela, e da barriga dela crescendo com o meu irmão dentro. Eu sabia de tanta coisa então que depois o tempo me fez esquecer, e depois o tempo me fez não saber, ou saber tudo ao contrario, só pra discordar, e ai eu sabia quando ela se enfurecia, não pela barriga, porque eu não deitava mais lá, mas pelos olhos, e eu não sabia responder, e até hoje quando eu fico brava num sonho, eu tenho tanto a dizer e perco a voz. Mas pra ela, fora do sonho, eu disse coisas que eu não queria, ou não devia, ou queria, porque quando eu tava com raiva, e tinha aquela idade, eu era assim. Depois foi a minha barriga que cresceu, duas vezes, e a gente torceu pra ser menina, porque a gente queria que fosse menina, pra continuar como era, como éramos, só nos duas, quando eu deitava a cabeça na barriga dela no restaurante cubano. Mas eram sempre meninos que moravam na minha barriga e a gente comemorava mesmo assim. Porque os meninos são divinos, ela dizia. Depois uma coisa muito feia entrou na barriga dela eu queria entrar lá e arrancar todo aquele atrevimento, de entrar ali, naquele lugar dos barulhos e bolhas que eram meus, quando eu me cansava e me deitava. Metade no colo, metade na cadeira. Um dia ela sentou no sofá e sentia frio, e eu deitei na barriga dela só pra escutar. O barulho continuava o mesmo, mesmo depois que minha orelha cresceu. Ela enroscou os dedos nos meus cachinhos que ela detesta quando aliso e me chamou de coração. O coração dela, eu pensei, deve estar na barriga também.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Ó!

Do lado da sauna gay tem o puteiro. Do lado do puteiro tem o Ó. Você para diante da janela e olha. Se tiverem quatro gostosas você entra. Tem duas. E meia dúzia mal dormidas. Você entra mesmo assim. É destratado pelo segurança, não arruma lugar pra sentar, fica de pé entre os passistas, que dançam samba como antes se dançava forró. Mas você não vai embora. Porque pode ser que algo aconteça, que alguém tropece, que alguém perceba que tem gentileza na tua torpeza. Quando você começa a suspeitar que bebeu demais, tem fila pra pagar a conta, tem fila pro banheiro e o banheiro é unissex. Você para, braço cruzado, estilo blazê, só fitando a mulherada. Um cara entra e mija de porta aberta. Uma mina entra atrás, e fecha a porta. Eles demoram. Você desconfia. Ele sai na frente. Ela sai depois, gargalhando. E se fosse a mulher da tua vida, aquela devassa que entrou no banheiro? Não é.

Tuas costas doem e você nunca soube sambar. Começa a sentir o chocalho fatídico dos ossos, o fígado que vai se revoltar de manhã. Mas ainda é madrugada e de quem é essa voz pentelha a te aconselhar pelo muro do cemitério?

Ai então que você entra, rapaz, no cemitério de noite, como um delinqüente, como um merda dum maconheiro sem nada em cima, só porque você é bem louco. Você chapa numa tumba de mármore só porque tem um camafeu com o rosto de uma mina que morreu em 1923. Você acha que não existiam minas em 1923. Mas elas existiram.

As ruas tem letras. O cemitério é um grande camping de mausoléus ostensivos que te fazem lembrar que a Vila Madalena são os burgos. Se você tivesse crédito, mandava um torpedo pra ela, mas o teu descrédito não tem precedentes. Ela batia com a mãozinha histérica na buzina pra você sair da frente do carro porque você tava bêbado demais pra deixar a mulher da tua vida ir embora guiando o teu carro. E você perdeu a mulher, e o carro, e ainda vai ter que pagar pensão.

Quando tem estrela na noite paulistana é Venus. Alguém te disse isso e você nunca duvidou. Assim como você acreditou que azeite, quando esquenta, vira gordura trans, ou que no Butão tem qualidade de vida. Você verificou, por acaso, pra sair por ai dizendo essas coisas? Não verificou. Tua tese te dá vergonha. Você disfarça. Vai dizer que não dá?

Tem noites, meu velho, que era melhor ter entrado no puteiro!

sábado, 22 de outubro de 2011

BANCO DE COURO

O cabeleireiro lhe ensinou que as mulheres não envelhecem: ficam louras. Ela prefere acreditar que está mais interessante. É como vinho, como Carla Bruni. Só melhora com o tempo. Com os cabelos devidamente escuros e poucos fios brancos para delatar a idade, ela malha, trabalha, tem grana para comprar maquiagem importada, e ao fígaro -divaga em silêncio- compete o design de suas sobrancelhas. Prefere seu corpo hoje ao que era há uma década, quando a ditadura da cintura baixa a fazia odiar sua barriga. Hoje ela aposta no decote. E decote não depende de peito. Depende de lingerie.

Sabe que salto alto favorece as batatas e se equilibra nas alturas. Desdenha, com uma simpatia nostálgica, da chinesinha xexelenta de xiboquinha e cipó cravo que seu pai jogava no lixo quando ela voltava do forró. Sob protesto, ela argumentava: todo mundo devia ter só um sapato. Hoje tem sapateira. Seu closet é quase tão lindo quanto o da Carrie Bradshow. Quando sente fome nas horas tardias, não pede pizza, pede Temaki. Tem iphone, pacientes, amigas, um pai fanfarrão e uma solidão de gastrite dessas que costumam bater nas madrugadas frias. No verão é muito mais fácil ser solteira. O sol se encarrega dos prazeres da epiderme, o corpo corresponde em bronzeado, e nada como uma marquinha de biquíni para aplacar os ânimos de uma mulher aos trinta anos.

Os pacientes já pagam seu preço na íntegra. Não há nada que não seja maduro na sua conduta. A não ser pelos tipos raros que acordam ao seu lado, quando ela se excede na balada. São sempre iguais, o que varia é o endereço da casa de seus pais porque os caras com quem ela se amanceba não são emancipados: sonham em viver em Fernando de Noronha, não tem grana pra pagar a conta. É sempre para um desses que ela acaba dando mole. E quando são muito fofos e bons ouvintes, a relação pode se alastrar por dois anos, sem que ela jamais os apresente como namorados. De noite, reza para os anjos da guarda e conversa com Santo Antônio. No réveillon, baixo a chuva de fogos em Copacabana que ela vira pela primeira vez, o Santo lhe aferiu: “este ano o projeto é de mãos dadas”. Mas estamos em setembro e ela segue solitária.

Essa noite ela ainda não rezou porque pretende dormir muito mais tarde. As amigas estão no banheiro do seu apezinho alugado em Perdizes. Ela tem um estojo de maquiagens invejável. E aprendeu o ofício no site da Julia Petit. Está perfeita: batom nude, e o nude é o novo Black, diz sua melhor amiga publicitária. Olhos reforçados em lápis preto, estilo Amy Whinehouse, cabelo de gringa (aquele coque solto em que os fios se esparramam pelos ombros despenteados), blusinha tomara que caia, calça justa, sapato meia pata. Hoje ela vai pra guerra. A balada é corriqueira. Festinha na laje, casa da Fecê, amigo desde a quarta-série. A mesma balada brancodrama dos últimos 20 anos. É amiga do DJ e o DJ sabe que a mulherada dança melhor em português.

Ás vezes o esquenta é bem melhor que o evento. Amigas reunidas experimentando roupas, exibindo as calcinhas novas, maldizendo as próprias bundas, exorcizando celulite, tomando caipirinha de saque com adoçante, obviamente. Camarada faria tudo para estar ali, invisível, vendo as meninas de topless, troca- troca de blusinha, birita, baseado, gargalhada e apenas uma pauta monotemática, em várias derivações que nunca perdem o eixo: homem. Só falam de homem. As casadas reclamam, as solteiras também, comentam os gatinhos da repescagem. Ela só tem esperança ali: na repescagem. Um dia, um cara incrível, separado e superado o trauma, ainda há de seu príncipe. Mas essa noite a diversão começou em casa e não tem problema se não tiver ninguém interessante na laje do Fecê, o que aliás, é o mais provável. Figurinha repetida não completa álbum, afinal.

Saem em dois carros, param no posto, compram cerveja e gelo. Chegam naquele horário estratégico: balada bombando, breja rareando e oito deusas com oito caixas e um saco de gelo na mão. Se sentem numa propaganda da Brahma. Quase isso, à diferença que tem pós graduação, um trampo desafiante e muito repertório. Ela, além de boa leitora, cinéfila, gourmet e fashionista, manja de futebol. E manja de verdade. Não como a maioria das mulheres que arrisca falar de futebol só pra fazer pressão. Ela é flamenguista. E sabe do que está falando. Assiste mesa redonda no domingo, e não troca por nenhum filme com o Rodrigo Santoro. Futebol, pra ela, é coisa séria.

Por isso mesmo, os caras, essa noite já chegam aloprando. O Flamengo perdeu a liderança para um time paulista, e ali, na laje do Fecê, só ela, ninguém mais, é flamenguista. Quando se dá conta, breja numa mão, cigarrinho de filtro branco na outra, do alto de suas sandálias meia pata, está ela, boca suja, falando alto, discutindo o impedimento com um conhecimento de causa arrebatador. Bate um bolão, definitivamente, e também por isso mesmo, boa parte da rapaziada não se atreve: quem banca? Bem sucedida, boa de verdade, bom gosto, bom berço, bom papo e boleira. É muita responsabilidade. E ela vai colecionando amigo macho.

Começa o samba. Ela vai pra roda. A meia pata atrapalha um pouco, mas ela samba direitinho. Está totalmente confortável apesar do salto. É uma noite feliz, e que importa, no fim, se vai dormir sozinha? Mas é quando menos se espera uma inflexão que ela acontece, assim como um acidente de carro. Ela samba, dá voltinha, paradinha, bambeia, faz que cai, não cai. Ele a segura. Como é bonito. Suas mãos na cintura fina dela. Nunca tinham se visto. Era primo do amigo de não sei quem. Não falam. Só beijam. A saliva combina. A pele combina. O samba é romântico.

Ele é corinthiano, o que, para uma flamenguista, é menos problemático do que ser são paulino. Ele é solteiro. Ele é CLT. Ele conjuga os esses. Ele serve seu copo de vinho. Ele oferece o casaco quando ela sente frio. Ele a respeita. Ele carrega sua bolsa. Quando ele abre a porta do carro – prática que somente um percentual mínimo de cavalheiros de rara estirpe ainda preserva- o carro da porta em questão é um AUDI.

No caminho, ela só pensa numa coisa: “Por que um AUDI?”. Se ele tem cem mil reais para torrar num carro, por que um Audi e não um Land Rover, ou qualquer outro carro que justifique gastar tanto em quatro rodas? Um Audi não encara barranco, estrada de terra, buraqueira. Um Audi não é econômico. Audi é carro de tiazinha que não tem competência pra dirigir uma blazer. E ela por princípio, abomina tiazinhas de blazer. “Por que um Audi?” . E se for dos pais dele? Se for dos pais dele, ela já sabe que ele é do tipo que sonha em viver em Fernando de Noronha. E pior: antes um pé rapado que mora com os pais do que um playboy que mora com os pais. Ela não sabe bem porque acredita nisso. Faz parte de seus princípios. Talvez porque sua vida tenha sido uma eterna labuta. Talvez porque tenha se acostumado a viver com o constante problema da falta de grana... Talvez porque a simples ideia do investimento num carro paga pau com banco de couro- a mesma grana que poderia dar entrada na casa própria que ninguém da sua família jamais teve- a deixe com náuseas. Ela bebeu pouco. Mas o cheiro do couro é foda!

Ela pede pra ir pra casa. Ele respeita. Abre a porta do carro, ela não dá explicações, nem beijos, nem esperanças, nem telefone. Bate a porta do Audi e entra na portaria. “Por que lindo se dirigia um Audi?”. "Por que dirigia um Audi, se lindo”. Está tudo errado! Não vai rezar pros anjos da guarda. Não vai falar com o Santo. Hoje ele passou dos limites. "Um Audi!!!"

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Roupa Suja


Saiu pra lavar roupa suja e levou um tiro na perna. Quando olhou pro saco vermelho soube que o sangue era seu. Não podia olhar pra sangue. Se pudesse, era médico, não contador. Mas os incontáveis apagões nos seus intentos de enfermeiro o demoveram de tão nobre ocupação. Era como um cão, um pastor alemão. Servia para contar os pares, os números primos. Sangue não.


A ambulância foi direto pras Clínicas. O bandido convalescente ao seu lado protestava. A Santa Casa estava ali do lado. Pra que iam pra tão longe? Mas voz de bandido é voto vencido. Então ele se pronunciou: A Santa Casa era ali do lado. Quem ouviu fez que não ouviu. Na ambulância, cada um com seu ofício. O enfermeiro oxigenava os baleados. O motorista guiava.

Na UTI recebeu visita de um delegado vesgo. Dois protocolos, um boletim de ocorrência e as notícias do mundo: “Seu amigo quase morreu”. A que porra de amigo o delegado se referia? Ao bandido. Saiu pra lavar roupa, levou um tiro na perna, e virou cúmplice ao olhos tortos de um delegado desinformado.


Uma quarentena nas clínicas salvou sua perna da amputação. A muleta era sua única companheira. Voltou pra casa de ônibus, no assento dos desvalidos. Passou na lavanderia pra saber de suas roupas. Eram escassas. Ele era contador. A mocinha guardara cada peça mas estava de férias. O japonês puxou assunto: “Soube que seu amigo já está melhor”. Ele decidiu não contrariar. Se o acaso o fazia cúmplice do bandido no tiroteio que quase ceifou sua perna, quem era ele para discordar. Ele só contava. Era pra isso que veio ao mundo.

Foi na escadaria do prédio sem elevador, em Santa Cecília, que soube a real sucessão dos fatos. Cada degrau que o porteiro o ajudava a subir era um detalhe insólito que ele perdera na vertigem dos tiros.


Quando atravessou a rua naquela manhã de agosto em que ele seria baleado, Abelardo Cruz, o dono do estacionamento, resolveu cobrar uma dívida de rinha de galo. João Pontes estava ocupado fumando maconha na casa de Evangelina .“A do 5 B?”. A própria. Traficante? Óbvio. O Pontes laricado, foi comprar um saco de carolinas na padaria Nova Palmeiras. Quando abriu a porta do edifício, Cruz, que se dirigia ao bingo, o surpreendeu. Vendo seus olhos vermelhos e sua cara de mal intencionado, fez logo a suposição errada, e advertiu: “Pára de mexer com minha filha”. A ruiva? A própria. Mas é ruiva mesmo? Até o último fio do pentelho. Pontes, quando não fumava maconha, comia a filha de Abelardo Cruz. Mas essa manhã ele só estava provando uma remessa uruguaia que sobrevivera a entressafra. Nessa mesma exata hora uma moto parou do outro lado da rua. Pontes e Cruz de um lado. Um motoboy de capacete e a ruiva, de rabo de cavalo. Ela saiu correndo. O pai correu atrás, soltando a cinta pra dar na menina. Enquanto isso, ele atravessava a rua pra lavar roupa suja. Não viu a ruiva, nem o Pontes, nem o Cruz. Ele lembrava de uma moto estacionada na faixa. Mas as motos vivem estacionadas nos lugares proibidos. Abelardo deu na ruiva, Pontes foi defender, o motoboy sacou o três-oitão, a policia viu tudo, e alguém disparou. O motoboy entrou na lavanderia .“Eu só estava separando as brancas das coloridas”.


Destrancou os dois trincos de chave tetra. As janelas estavam abertas há quarenta dias. Os tacos debaixo de onde a chuva caiu inclemente não resistiram. Ele contou: 42 tacos na vertical teriam que ser substituídos. Os da horizontal, sabia lá porque, tinham resistido. Pegou as páginas amarelas da década passada, ligou pra uma empresa de sinteco cujo telefone já não era mais de 6 dígitos, blasfemou, tirou a calça, ficou só de samba canção e gesso, os pés pra cima, pensando nos tacos. A campainha tocou.


Arrastou-se até a porta. Viu, caolho, pelo olho mágico, a ruiva, de cabelos soltos. Destrancou os dois trincos de chave tetra. Abriu a porta. Não precisou falar.


“Me deixa entrar, pelo amor de Deus. Como você demorou. Faz 40 dias que estou esperando você voltar pra casa. Me fala. Como ele está? Onde ele está?”


Quem? O amigo, obvio. Agora até ele acreditava. O motoboy então era seu amigo. A mulher do bandido estava ali, molhadinha de lágrimas. Assentiu: “Ele está bem. Mandou eu ficar de olho em você?”.


“Mandou? E por que ele não veio me ver?”


“Porque senão ele vai preso”.


Ela chorou mais. Ele ofereceu água com açúcar mas seu andar era tão débil que a ruiva se comoveu. Que casa suja! Ela limpou a bancada, passou um café, lavou os pratos com os fungos em quarentena. Tudo ali estava em decomposição. Ele era a própria imagem da desolação. Por um instante ela esqueceu do motoboy. Enxugou as lágrimas. Pegou uma caneta e assinou o gesso.


A perna quebrada atrapalhava um pouco. O gesso, a samba canção, o assoalho molhado. A ruiva no sofá, os cabelos soltos, a casa escura. Já era noite quando ela tirou a blusa. Já era noite quando ela tirou a calça. Ela sussurrava sandices na sua orelha de contador. Ele só queria olhar. Uma luz envergonhada entrava pela janela. Maldisse o veado do prefeito que acabou com os outdoors luminosos em Santa Cecília. Não podia acender a luz. Nunca soube a cor dos seus pentelhos. Ela deixou uma calcinha refém. Mandinga de ruiva devassa, o porteiro explicou. Era vermelha. Mas ele resolveu lavar no meio das roupas brancas.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ERA UMA CASA

Nem bem o velho morreu, o caseiro deu pra beber de verdade, em copinho de dose, metade pro santo, outra pra dentro. A viúva não sabia como proceder. Sabia dar ordens, comandara a cozinha como uma estadista, mas o caseiro era de uma natureza inapreensível. Bebia demais e ameaçava as filhas. A avó que quase só tivera filhos e netos macho, virou líder de um matilha de amazonas.

Quando o caseiro enamorou-se de uma cadela dálmata, a resignação tomou o lugar de qualquer outro sentimento que pudesse aflorar dentro dela. Ele consumara o ato com o cão de guarda do vizinho. Ela que tinha uma idéia nebulosa do amor e dos animais, segurou o livro de orações e decretou, “Estou viúva”, não sem antes despedir o herege.

Nunca mais tricotou, nem cozinhou, nem zelou pelos netos, nem mudou o canal da televisão. Sentou no mesmo canto esquerdo do sofá em que se sentara nos últimos 40 anos e esperou o tempo passar. Os sofás se dispunham em L, separados por uma mesa cantoneira, e na outra ponta, do outro sofá, sentava Domênica Bertotti, irmã de sua mãe. Domênica esperou a morte por 33 anos e 33 dias. Aos 100 anos, caiu no chão e disse “Chega”. Até morrer, um par de anos depois, seria a única coisa que diria com entusiasmo, alem de murmurar algo em piamontês e clamar por Antônio, que ninguém soube quem foi.

“ Elas ficam”, disse a viúva ao caseiro, esquecendo que não se olha nos olhos de cão raivoso. “Ir com o senhor pra onde, pai?”, questionou a caçula, em tom de súplica, como se a pergunta pudesse expiar sua culpa. Ainda era apenas católica. Ele esbravejou contra as filhas e babou. A mulher tentou acalmá-lo mas levou um tapa no rosto. Para uma mulher decente, um tapa basta. Seu coração não era adestrável. Que fosse pro bar procurar outra cachorra.

Ele obedeceu. A dálmata estava presa no canil. O bar estava a 2 km dali. A noite preta e branca maculava sua dignidade. À noite, ele enxergava como os cães: puro rastro. Queria matar as filhas, a esposa, a patroa e a cadela. Iria matar as filhas, a esposa, a patroa e a cadela. Todas juntas. Querosene e cachaça. A sarça ardente. Pisava as brasas de São João. Só tem medo do fogo que nunca foi pro inferno. E sua vida fora uma sucessão de inferninhos enrustidos, entre o fardo e farda, sua decente ocupação.

“Foi no dia em que perdi meu emprego, minha mulher e minhas filhas que eu segurei na mão de Deus”, diria o caseiro, depois de encontrar Jesus. O encontro seria furtivo e arrebatador. Mais perene que se arranjado. Seu Zé, o motorista da viúva, por dentro dos pormenores, correu para lhe estender a mão: era evangélico. Porque pra estender a mão pra desvalido, drogado, doente, ninguém como um evangélico. E o caseiro foi à igreja. Primeiro encontrou Jesus. Depois falou com ele. E por fim, virou pastor e falou em nome Dele. Quanto mais sujo o passado do regenerado, mais imaculado o seu presente. Ninguém mais se lembrou da dálmata.

A viúva ciente da inflexão que parecia obra divina achou mesmo que eram bem tortas as linhas do Senhor. Não ia a igreja porque era Kardecista. Recebia cartas psicografadas do marido que não fora epistolar e nem cristão. Mas acreditou nas cartas e passou a confiar no caseiro como ele mesmo confiaria. Sabedoria anciã que releva o que não move moinhos. Olhou uma das placas da parede da cozinha e repetiu, como se fosse um epitáfio: se a sorte te der um limão, faça uma limonada. Sozinha, naquele fim de mundo, naquele fim de vida, zelando pela tia centenária, guardada por um caseiro zoófilo, era melhor mesmo que o marido estivesse ciente, ainda que fosse em outro mundo. A vida seguia em frente, enfim.

Nasceu o segundo neto 3 meses depois que o avô morreu. Domênica Bertotti dizia que o rebento era a reencarnação do velho. Havia muitos indícios. Não eram só as datas de óbito e nascimento que coincidiam com o tempo espírita de retorno a terra. Eram também os fatos, os traços, os trejeitos, as manias e o gênio forte. Velhos são gabaritados em interpretar a personalidade dos bebês. Já viram muitos. “Deixa eu gastar o meu”, dizia a avó, apertando o rebento, como se a vida não desse tempo.

14 anos depois, quando enfim a viúva também morreu, um padre que passava pelo velório se ofereceu para rezar uma missa. Ele rezou, mas foi inapropriado, porque a finada era espírita. Na sua crença, estava em um hospital, assimilando a vida após a morte e curando a alma das mazelas terrenas, para então chegar ao gramado verde, abraçar o marido, a italianada toda e morrer, feliz para sempre, ou até reencarnar. Mas os terráqueos rezaram missa no velório, muito embora ninguém ali soubesse rezar. Geração de ateus – pagãos diria a velha- mas a velha estava morta, e morto não tem vontade.

“Locação de filme pornô”, disse o caçula da finada. “Meu pai sempre sonhou em ver uma putaria na piscina”. Não era inconcebível que 24 horas depois da orfandade o caçula tivesse idéias tão hereges. Naquela família, prerrogativa de céticos, o luto não prescindia de tristeza. Tomaram cachaça, brindaram os mortos e quando todos pensavam que o latifúndio seria posto a venda nem bem o corpo da matriarca esfriasse, nada mudou.

A casa no fim do mundo ficou vazia da velharada mas era como se todos eles continuassem por lá. O outro filho, o primogênito, tomou as redes da propriedade. Não deixou que tirassem um retrato da parede: nem o Jesus dourado e a coroa de espinhos. A pintura do Arco do Triunfo continuava imperando na parede da sala, embora ninguém ali conhecesse Paris, e ao lado dele, a porcelana pintada a mão pela Tia Laura, que nunca fora pintora.

O que são os espíritos senão a matéria morta da nossa memória? As velhas continuavam lá. E como não continuar se todos os seus pertences permaneciam ali, como um mausoléu de quinquilharias embalsamadas, um museu da saudade? “ Tia Domênica era a criatura mais espiritualizada que eu já conheci”, advogou o caçula herege . “Antes mesmo de morrer, ela já estava em alfa, tocando harpa com os arcanjos do senhor”. Talvez ele estivesse certo e Domênica já tivesse desencarnado há muito tempo. Mas e se não tivesse?

Quando nasceu Sebastião, com seus grandes olhos que foram verdes nos primeiros meses, ele gargalhava risos de bebe aos ventos. Certo dia, ria tanto olhando para o nada, que a gente soube: “As velinhas estão gracejando com ele”. E era tanto gracejo que feria o senso comum da família, que por definição, não acreditava em nada alem dos direitos humanos. Mas quando os fantasmas vieram puxar o pé dos dormentes, era hora de fazer alguma coisa. O caseiro orou. A esposa, com as palmas das mãos erguidas, sussurrava palavras repetidas em nome de Jesus.

“ Livra essa casa do mal, meu pai”.

Mas que mal havia em continuar morando na casa em que sempre se morou mesmo depois de morto? Foram quase cinquenta anos afinal. Mas as velhas eram espíritas e refutavam as orações dos crentes.

No quarto de dormir onde a avó dormira durante toda sua vida havia um retrato em óleo de seus 4 anos, com laço de fita na cabeça. O dia em que a menina velha saiu da parede, Lia ainda estava grávida. A avó apareceu num entressonho, naquele momento nauseabundo em que o corpo adormece, e a razão desapegada das entranhas sabe muito bem que esta dormindo. “Acorda”, gritava sem som. A alma de Lia escutava arguta, tentando avisar o resto. A menina avó saiu do quadro e falou pouca coisa: somente aquilo que uma menina de 4 anos falaria. Contou alguma coisa de outrora. A historia de como a mãe matou uma galinha. Aquela que morreria de Parkinson, adquirido ainda na mocidade. A que engravidou de um espanhol de origem desconhecida. A menina avó, do pai, herdara tão somente o nome: Gómez. Bertotti Gómez, que ela borraria de seus registros como uma nódoa, uma gota audaz de azeite que insistiria em macular seus hábitos. A avó nunca seria bela. A menina avó o era, ali naquele sonho a óleo sobre tela, como o são, na graciosidade inconteste dos infantes, as crianças de qualquer tempo: laço de cetim caído para o lado nos cabelos que no futuro exalariam spray Karina. Toda ela era olor de tinta fresca. O quarto, com o lustre de lança invertida, apontando para baixo, para a perna de quem recostasse no canto direito da cama, a ameaça fantasma, o tremor da terra que não tremia naquelas instancias. Só naquela triste e leda madrugada. Naquela em que Lia jazia sem pernas, paralisada, lançada pelo lustre feio da década de 60. A avó aos 4 anos de laço no cabelo espreitando o estancamento, a curiosidade diabólica da primeira idade. A perna doía suas azias de grávida, e dentro dela, crescendo e aparecendo, Sebastião reinava entre suas costelas. Torcia o sudário que cobrira o travesseiro, a cabeça branca do avô naquele canto direito da cama que nunca teve medo do lustre. A cabeça que nunca separou da perna, sua barriga grande e cheia de sardas. A barriga de Lia, grande e cheia de vida. Sonhou

Depois contou ao pai a experiência borgiana como se o tentasse a remover a tela dali. Mas ele via, confundido, Dorian Gray em suas súplicas. Lia desistiu. Deixou que o museu imobiliário reinasse incólume. Ele precisava daquelas lembranças.

Quem são os fantasmas senão aquilo que fazemos deles? A lembrança matizada na casa. O DNA.

A menina avó começara a gracejar para o Sebastião ali, mas Lia não tinha percebido. Foi ele nascer e produzir seus próprios risos para ganharem amizade sincera. E passaram-se a querer bem. Bem queridos, os dois. A viúva morta e o bisneto vivo. Mas o primogênito pusera a casa a venda. Achado o comprador, restava ainda saber o que fazer com os móveis. Se a família vendesse tudo, herdariam os felizes novos proprietários, a matéria morta e incerta dos fantasmas que ouviam rádio?

EU NUNCA

Eu nunca beijei mulher, eu nunca roubei, eu nunca matei uma barata. Eu nunca usei cinta liga, eu nunca tive cabelo curto, eu nunca passei no Santa. Eu nunca li Dostoievski, eu nunca comi cobra, eu nunca tomei êxtase, eu nunca fui cd mas também nunca repeti de ano. Eu nunca fiz suruba, eu nunca fui pra Espanha, eu nunca esqueço. Eu nunca soube onde começava e nunca disse que ia parar.

Eu nunca faço esportes, eu nunca ligo pra minha vó, eu nunca esqueço de jurar ligar mais vezes, eu nunca cumpro no final. Eu nunca rezo, eu nunca espero, eu nunca tive medo da morte

Eu nunca pensei que fosse tudo tão depressa, eu nunca soube que doia tanto, eu nunca quis ofender. Eu nunca que diria uma coisa dessas, eu nunca penso antes de falar, eu nunca paro de fumar, eu nunca pedi por isso, eu nunca pedi outra coisa, eu nunca peço, eu nunca penso que quem não acredita nunca alcança. Eu nunca diria uma coisas dessas, de nunca diga nunca.

Eu nunca mais dancei forró, eu nunca mais dormi fora, eu nunca mais comi 7 belo, eu nunca mais falei com elas, eu nunca mais tive vergonha, eu nunca mais tive medo. Eu nunca mais confesso, eu nunca mais pergunto. Eu nunca mais fui a mesma. Eu nunca mais dormi, eu nunca fui muito bonita e nunca mais fui gostosa.

Eu nunca amei tanto, eu nunca chorei tanto, eu nunca pensei que pudesse amar tanto um ser que eu nunca tinha visto. Eu nunca soube que a gente ama mais a cada dia. Eu nunca amo do mesmo modo, mas eu nunca deixo de amar. E nunca fiquei dois dias longe dos dois. Eu nunca dei leite de vaca, eu nunca dei palmada, eu nunca fiquei sem saudade.

Eu nunca me contenho, eu nunca me reprimo, eu nunca passo do ponto. Eu nunca minto, quando nunca rola, quando nunca chego, quando nunca ninguém vai embora. Eu nunca finjo que nunca soube que nunca mais. Nunca, nunquinha. Eu nunca brinquei de eu nunca.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Chuva Ácida

A CET registrava 200 km de lentidão na capital paulista, índice muito acima da média para o dia e horário. Marginal Tietê alagada, morosidade no corredor norte e sul e pânico deflagrado na entrada do túnel Ayrton Senna. Arrastões e blitz se espalhavam pelos pontos de maior concentração humana motorizada. Nenhum helicóptero pode registrar os ocorridos. Chovia há dias e chovia pedras. Os carros buscavam um estacionamento coberto aonde fosse, a fim de evitar danos ao capô. Os taxistas eram os mais prudentes. Um alvará, num ponto como o aeroporto de Guarulhos, valia 500 mil reais.

“Prefiro andar pelas beiradas das ruas, que é onde alaga menos.”

“Mas o carro é seu ou é da frota?”, perguntou Bianca, recém chegada da Bahia, tentando atinar a resposta que acabara de ouvir, ainda um tanto indignada com os 120 reais que tivera que pagar no aeroporto para ser transportada até sua casa na Vila Madalena.

Para o taxista a pergunta era uma ofensa. São Paulo é uma sociedade em que as castas se preservam nas certezas imprecisas conjecturadas sobre o desconhecido. Um taxista tinha que pertencer a uma classe menos empoderada, razão pela qual evitava o centro das ruas quando a cidade alagava. Não aprendia empiricamente como os trabalhadores dos campos. Ou das praias paradisíacas em que paulistanas tomavam cachaça da terra e se enroscavam com nativos sarados. Os taxistas trafegavam pelos cantos entupidos, beirando as bocas de lobo, relembrando os tempos em que a administração pública pertencia a Paulo Maluf. Uma paulistana da Vila Madalena não suspeitaria jamais, que o um alvará da guarocoop pudesse valer o mesmo que o apartamento que ganhara de seus pais, na rua Harmonia.

“Moço, vou descer aqui mesmo”, disse ela, quando o táxi dobrou a esquina da Rodesia com a Jericó. Era quarta-feira, hora do futebol. As meninas estariam no bar e ela nem precisava passar em casa. O espelho do avião confirmara: a pele estava preta, sem máculas, a marca do biquíni valorizava o decote. “Deusa”, disse para si. E decidiu esquecer o capoeira que subia em coqueiros. As leis higienistas da cidade serviam, pelo menos, para alguma coisa. O lado de fora era e o melhor lugar da balada sempre. A chuva arrefecera. As brasas iluminavam a calçada. Um abraço coletivo, a mala que veio da Bahia, a surpresa da mulherada. Tropeço nas palavras e nos torcedores, histeria, futebol e decote na ditadura insana da noite. Bianca era um pouco anacrônica. O colágeno não correspondia a sua idade. Era bem sucedida, gostosa, assertiva. Mas passava as ferias na eterna Bahia de sua adolescência, tão remota para as amigas, disputando os mesmos nativos com garotas que tinham a metade da sua idade. “Chega de capoeira, cara acampado e coroa da night, Bianca! Porque você não pega alguém decente? ”, diziam as amigas, casadas e carentes de elogios. Seus caras decentes eram homens de poucas palavras: sem ciúmes, sem grana e sem graça. “Meu pai me ensinou que eu sou a cerejinha do bolo”, guardava para si. Não casaria só porque era hora de casar. Não passaria o resto da vida trabalhando em terapia uma forma eficaz de levar qualquer casamento, sentindo, a cada soluço, uma necessidade inexplicável de doar seu charme e outros atributos naturais de sua linhagem. Bianca era gata. Sua mãe era gata. Sua avó era gata. “Me deixa”, dizia, quase arrependida de não ter voltado direto pra casa.

Na madrugada se perdem os pruridos, a noção das horas e as palavras gastas. Na madrugada, uma mulher de trinta anos tem apenas idade suficiente para dirigir sozinha e fugir do bafômetro. Mas Bianca estava a pé. O argumento era safado e ela não resistia a um caudal de palavras sujas. “Melhor não”, mentiam os lábios enquanto o corpo todo dizia sim. O carro de um desconhecido entrava pela garagem e as mãos do motorista a acariciavam por baixo de uma penugem discreta, que insistira em crescer durante as férias, estragando aquilo que as profissionais da cera batizaram, por catalogação do ofício, de depilação semi intima e que podia variar de 20 a 43 reais. Transaram nem bem ele fechou a porta do apartamento.

Acordou pelada, no chão da sala. Os olhos turvos reconheceram suas roupas espalhadas pelo chão. “A mala, puta que pariu”. Queria sair de lá sem ser vista, dar bom dia ao porteiro e chegar em casa, pela primeira vez, desde o natal.

“Acordou, gatinha?”, disse um cara de toalha e havaianas. Ela acenou com a cabeça. “Quer café?”, ele perguntou, enquanto colocava água para esquentar. O fogão era de inox. A cozinha se integrava a sala como no cenário de um filme em que o George Clooney fazia papel de solteiro. Do galã, o cara de toalhas e havaianas na sua frente só tinha os grisalhos. “Os pentelhos ficam grisalhos?”, vagueou seu pensamento sem conseguir lembrar. “Você sabe da minha mala?”. Ele negou. Nem sabia que trazia uma mala consigo. “Preciso ir”, ela disse. E ele não disse nada para impedir. Ela foi. Desceu as escadas correndo. Estava na porta de entrada de um prédio sem elevador, numa avenida larga, de mão única, num canto desconhecido de São Paulo. Acenou para um taxi. A precipitação se insinuava mais uma vez sobre a cidade. “Só chove nessa merda”.

O motorista tinha mais de sessenta anos. “Moço, eu vou pra Vila Madalena”, disse Bianca.

“Eu posso te levar até lá, mas vou por dentro e vai ficar mais caro, porque a marginal tá interditada desde ontem”, advertiu o taxista, sem olhar pelo retrovisor.

“Ahã”, respondeu Bianca tentando adivinhar em que fim de mundo tinha ido parar naquela madrugada. Estava na zona sul, e ela não conhecia nada alem da ponte, Butantã e Barra Funda. Sentiu o celular vibrar no bolso da jaqueta. Ainda tinha celular, comemorava seu superego, enquanto do outro lado da linha, a voz de Nana a fazia recordar que o que fica oculto simplesmente não aconteceu:

“Cadê você, sua doida? Sua mala ficou no bar e você foi embora de carona com aquele cara que mora em Interlagos.”

“A mala tá com você?”

“Não! Dei a mala pro França, porra”. Era obvio que a mala estava com ela. Ainda bem que a mala estava com ela. Ela teria perdido tudo: a câmera fotográfica, a rasteirinha da Cas, os biquínis da Mulata, tudo que ela cuidara com tanto cuidado no cafofo do capoeira para que não se confundisse com a bagagem das adolescentes argentinas que acampavam no quintal.

Lamentou não ter ganho a botinha preta no amigo secreto da família. Lembrou disso no taxi. A avó disse: “Você já tem tantas. Por isso comprei uma bolsa”. Ela gostou da bolsa, mas era de uma cor laranja, difícil de combinar. Precisava mesmo da bota preta, embora tivesse uma marrom e uma verde musgo. É que pra determinadas ocasiões e peças, a bota tinha que ser preta. Mas nem valia a pena explicar. Todo natal, depois da catarse, a casa da avó esmagada em papel de embrulho e fruta seca, era sempre a mesa sensação de vazio: faltou um biquíni, um cintão, um vestidinho branco pro réveillon. Sempre faltava alguma coisa. As gotas iam ficando mais espessas, viravam gelo e caiam sobre o pára-brisas do taxi. Agora só faltava a mala, que estava com a Nana, e ai sim, chuveiro, cama e chega de saudade. Mas o taxista tinha medo da geada. “Da ultima vez, moça, meu vidro ficou estraçalhado. Eu vou encostar no estacionamento coberto do Extra, se você não se importar”. Ela se importava. “Vc não disse que ia evitar a Marginal?”, questionou. Mas o taxista tinha seus motivos. Bianca precisava vomitar a cozinha de inox do coroa grisalho mas não disse nada. O cabelo cinza, a cozinha cinza, a manhã cinza. É que faltava ar.

Não conseguiu abrir as janelas que o taxista travara. Gorfou no banco de trás. Desceu do carro sem pagar, se esquivando dos xingamentos, no meio da tempestade. A maquiagem escorria pelos olhos de trinta anos, a lente de contato coçava pedindo higiene. Entrou no banheiro do hipermercado. Uma moça feia espremia espinhas diante do espelho. Feia demais, ela pensou, lembrando de Hilda. Aprendera com a avó a fazer uma cara simpática quando olhasse pro espelho. Mas ele nos flagra nas feições mais renegadas. Estava ensopada diante de um espelho em um hipermercado da zona sul. Lembrou da canoa, do trator, do barco, dos dois ônibus e do avião que tomou pra voltar pra casa. “São Paulo não é para amadores”.

Saiu do banheiro e comeu um pão de queijo. Era afeita a evitar carboidratos mas hoje não era dia de nada. Hoje era um hiato, um momento fora do tempo. Mas não como quando se reencontra um amor de infância e as horas transitam nas bordas. Hoje era um buraco negro. Toda a massa universal convergia para um ponto único, escuro e inexorável, o orifício da sua vagina bêbada. Queria ligar pra casa. “Pai, cheguei”. Não tinha coragem. A cerejinha do bolo estava toda suja de chocolate.

Chegou a assuntar com um manobrista se algum ônibus ia pra zona oeste mas ela não entendeu a explicação. Sentou no chão de baixo do toldo, deixou o tempo esquentar, ou esfriar. “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”. Lembrou do contínuo aspirante a motoboy que trabalhava na agência de propagandas do seu primeiro estágio. Ela beijou por desencargo de consciência de classe e o analista perguntou: “Seu corpo, por acaso, é uma ONG?” Se a vida acabasse ali, como um meteoro sobre a lanchonete do Hurley, quais seriam os últimos pensamentos? Para onde esses pensamentos vão depois que a gente morre? E se ela fosse estéril? E se tivesse unzinho pra ouvir estéreo...

Já era de noite quando conseguiu um novo taxi. “Pra Vila Madalena”, disse, sem pedir por favor. Não olhou pro motorista, pro meio fio, pras bocas de lobo, pra rua em curva, pra chuva que arrastava os sacos de lixo. Queria ficar assim, sem olhar. Só o OHM dos eunucos de laranja. Ah, os eunucos de laranja... “Rua Harmonia, né?”, perguntou o taxista, virando à direita. Ela pagou sem falar nada. Bateu a porta do taxi, olhando pro outro lado. “Tem geladeira não?”, ele disse sem ser escutado. Chovia demais.